domingo, 28 de outubro de 2007

Complicações Com Um Banco


Do oco de lá, caixote de vidro no meio da avenida, via as gentes passando rápido em oposição ao vento. Não importa a direção que tomavam, era sempre investir contra, atacando as pedras da calçada com pasmosa decisão, a polvorosa dos cabelos. Pareciam muito encontrados naquela indisposição de manhã fria. Excessivamente encontrados. Incomodamente encontrados. Sabiam as coisas e a operação das coisas, uma força sem guia nem mapa, só tração. Estranho mesmo eram as coisas (e a operação das coisas) não lhe parecerem de todo estrangeiras. Do oco de lá, silêncio zumbido que mais parecia máquina, até que eram bem familiares, com uma única diferença: estarem do avesso -- sinfonia taluda que alguma orquestra executasse de trás pra frente. Idem as instruções de uso, as letras ele conhece, mas as palavras que constroem não têm parte alguma em si. O que não encaixa, mas tem existência. O pensamento sempre favorecia o que não tinha encaixe, desfechava-se lá sem o mínimo pudor.
Agora um arranque da consciência e ele contrafigura experimentos com macacos: colocar o objeto quadrado na fôrma quadrada, o objeto oval na fôrma oval. A sinfonia de trás pra frente não encontra fôrma nenhuma, mas se acidenta, e ele torna a pensar em poesia. Do oco de lá, a sensação de ferragens. As gentes passando sem tanto mistério.
(do conto "Complicações com um Banco")

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Buster Keaton


Em represália, dou a cada dor antiga o nome de um comediante.

(Buster Keaton me pegou pelas canelas ontem à noite)

O Cinematógrafo das Letras


“Fragmentar a imagem do mundo é uma coisa; pôr em risco um ego scriptor todo-poderoso, outra bem diferente. Porque isso acarreta, quando nada, tirar o solo de uma definição estreita, mas dominante, da lírica enquanto expressão de uma capacidade artesanal 'invulgar' ou de um eu que se confessa ou se projeta sem cessar sobre os mais diversos objetos, temas e situações enfocados. E, perdido esse eu sobre o qual se tecem, em geral, as significações no poema, passa a ser necessário trabalhar formas diversas de construí-las. E, testando impessoalidades irônicas, multiplicar as máscaras e deixar que se justaponham ou confrontem, em montagens imprevistas, discursos e imagens diversos.
São necessários, então, verdadeiros exercícios de tiro ao alvo. Exercícios em série. Como as muitas glosas da poesia enquanto quadro histórico que se sucedem em Pau-Brasil(1925). Ou como a invasão pelo reclame de uma possível cena íntima em 'música de manivela', do mesmo livro de Oswald:

Sente-se diante da vitrola
E esqueça as vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze cuidar
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços.

Poema no imperativo, como a forçar uma compra. Frases meio mecânicas, à maneira de gravações; repetições automáticas de um anúncio que se parece saber de cor. Poema sem sujeito ou interlocutores definidos. A um passo do 'produto industrial'. Espécie de olhar demolidor em direção à poesia em busca de profundidades e almas, em 'música de manivela' o prazer e a felicidade se compram e se encontram nos mais diversos magazines, 'a todos os preços'.
O oposto das indagações atormentadas de um Raimundo Correia, por exemplo, num poema como “Fetichismo”:

Homem, da vida as sombras inclementes
Interrogas em vão: - Que céus habita
Deus? Onde essa região de luz bedita,
Paraíso dos justos e dos crentes?...

Em vão tateiam tuas mãos trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a dúvida atroz blasfema e grita
E onde há só queixas e ranger de dentes... [...]

Interrogações que do desespero metafísico passam à charge se se contrapõe a elas um texto como 'aperitivo', da seção 'Postes da Light', de Pau-Brasil:

A felicidade anda a pé
Na Praça Antônio Prado
São 10 horas azuis
O café vai alto como a manhã de arranha-céus

Cigarros Tietê
Automóveis
A cidade sem mitos

É difícil ler sem certa ironia este 'que céus habita Deus?' quando se descobre que 'a felicidade anda a pé', quando imagens profundas ('as vicissitudes da vida, os prazeres da alma') e vocabulário vistoso servem apenas de recurso a mais em algum reclame de discos e vitrolas, quando 'foguetes pipocam o céu de quando em quando'.”
(Flora Sussekind, "O Cinematógrafo das Letras")

domingo, 21 de outubro de 2007

sábado, 20 de outubro de 2007

Susan Sontag


“We know more than we can use. Look at all this stuff I’ve got in my head: rockets and Venetian churches, David Bowie and Diderot, nuoc mam and Big Macs, sunglasses and orgasms. How many newspapers and magazines do your read? For me, they’re what candy or Quaaludes or scream therapy are for my neighbors. I get my daily ration from the bilious Lincoln Brigade veteran who runs a tobacco shop on 110th Street, not from the blind news agent in the wooden pillbox on Broadway, who’s nearer my apartment.
And we don’t know nearly enough.”

( Susan Sontag, “Debriefing” )

Geórgia na Estação Uruguaiana


"Hoje à noite fazemos a experiência (impagável) do óbvio ululante. Hoje à noite é uma porfiada análise do dois mais dois. Sim, vamos a isso: em trajes de safari. Monocromo, monofase. Vamos estripar o átomo (ele nunca me amou). Vamos jogar o átomo num fosso sujo (tudo mentira tudo mentira).
Estação Uruguaiana, 19:30.
Não há mão que me encoste no ombro. Não tem nada. Silêncio.
Nada além dessa indiferença modelar, marulho vago e enjoado de dezenas e dezenas de rostos que passam, em nada ficando; afogamento por multidão, doutor. Nada além dessa indiferença modelar, esse tédio incrível, esse tédio incrível que nasce o amor, pensando em nada que chego nele, o cinzeirinho de argila que aprendemos a fazer na Oficina do Diabo.
Talvez seja mais fácil ser inocente com as mãos sujas de sangue.
Ligar pro Maneco, preciso conversar com alguém, não agüento mais ficar quieta."
(do conto "A Desatenção")

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Os Imbecis


os imbecis têm cheiro de debaixo
de orelha de velha do interior
são como se sabe uma planura sem fim
e cada vez mais fácil reconhecê-los
numa multidão nunca se ouviu tamanha
ternura votar-se à própria voz
os que se gritam de madrugada plena
praça quinze juntos são um carvalho
medindo forças com o próprio tempo
era a tomada de Constantinopla e os
imbecis com seus chapéus perguntando “quê?”
e era o meio do filme e os imbecis
dizendo do sonho que tiveram noite
passada

os imbecis como se sabe
um pires ou um jingle de desinfetante bucal
é assim que sabemos os imbecis
salvo se seja imbecil também

os imbecis têm vivenda segura
nas canções do Brel
os imbecis articulam
coisa alguma
incansavelmente bem

os imbecis
isso é importante
os imbecis não queimam os cílios acendendo cigarro no fogão
os imbecis ao invés mentem o isqueiro que lagarteia no bolso
e dizem, por que você não acende no fogão?
não tem problema pode ir
eu faço isso o tempo inteiro

os imbecis
nem te deixar cantando sozinho na porta do colégio
eles deixam

é preciso arrebatar-lhes a palavra
não há destino mais cruel para a palavra
que acabar entre os dentes dum imbecil

(ai, o branco metódico
dos dentes
dos imbecis!)

os imbecis gostam de fazer espetáculo
da idéia arrancada a fórceps
e valquírios esfregam na nuca
dos demais convidados
a placenta sorridente do que não deu pensar

os imbecis como se sabe
revolucionaram o telejornalismo brasileiro nos anos oitenta
porque usavam seus cabelos cacheados
para telegrafar o mundo