quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Os Sábados Silenciosos


"Desde o incidente com o Lysoform, minha sogra, a Benemérita – temendo, não sem razão, pelas vidas de seu único filho macho e de seu único neto – me manda, de quinze em quinze dias, o equivalente a um carrinho de compras cheio daquilo que ela costuma chamar suas “poções do lar”. Elas me aparecem em garrafas Pet de refrigerante, todas doadas por seus vizinhos, posto que minha sogra não tem o hábito de beber outra coisa que não café, nem água ela consegue tragar. Com punho bastante firme para uma senhora de seus anos, ela escreve o destino final de cada preparado em etiquetas brancas com bordas vermelhas, as mesmas que uso nos livros escolares do pequeno. Não sei se as cola às garrafas antes ou depois do transvaso, mas nunca estão úmidas, nem minimamente rugosas.

Na tarde em questão, fui até a despensa e peguei a garrafa com a etiqueta 'Sala'. Pus seu conteúdo num balde e empunhei o esfregão: um portento de apetrecho, esse esfregão. Bem tentacularizado, com cabo polido, carmesim. Quando vi o anúncio na tevê pela primeira vez, figurei de imediato uma lula empalada num palito gigante, e minha alma, ou o que quer que seja, sofreu uma espécie de repelão. Pareceu-me muito claro que, enquanto aquele objeto não me pertencesse, minha vida estaria drenada de todo e qualquer sentido. Rapidamente tomei nota do número de telefone que piscava no canto esquerdo da tela, e meus olhos marejaram quando declinei para a atendente os dados relativos ao cartão de crédito de meu marido.

'Você não dimensiona o quanto estou empolgada'.

Apanhei-me fazendo a mesma ponderação com minha cunhada Ana, a Preterida, poucos dias antes da chegada do esfregão. Por sinal, é por intermédio de Ana que me aparecem as garrafas Pet com as “poções do lar” de minha sogra, no curso de visitas que nunca ultrapassam a marca de vinte minutos. Isto, diga-se de passagem, é uma benção para todos os envolvidos. Das irmãs de meu marido, Ana é a única que restou na casa da mãe, um autômato de ar constrangido a quem cabe a degradante tarefa de bater à porta de todos os vizinhos do andar de tempos em tempos, mendigando garrafas vazias de refrigerante."
(de "Os Sábados Silenciosos")

4 comentários:

SB disse...

Incrível como você consegue fazer das descrições verdadeiros poemas.
Lindíssimo, como sempre!


SB

OneLag disse...

O texto é seu? Se é, parabéns, achei mto bom.

Mas a sua personagem não tem voz de mulher. Tem voz de homem.

Ismar Tirelli Neto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ismar Tirelli Neto disse...

estamos tentando -- afincadamente -- borrar certas distinções. a Gerência se compraz do feedback, no entanto. gractos!