sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Todo um Momento



(da mão que eu não escrevo pra direita: Augusto, Bruna, eu, Mariano (de camisa vermelha), Domingos e Alice. E o macarrão tava uma belezura).

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Pinter




Poem

The lights glow.
What will happen next?

Night has fallen.
The rain stops.
What will happen next?

Night will deepen.
He does not know
What I will say to him.

When he has gone
I'll have a word in his ear
And say what I was about to say
At the meeting about to happen
Which has now taken place.

But he said nothing
At the meeting about to take place.
It is only now that he turns and smiles
And whispers:
'I do not know
What will happen next.'

***

Meus heróis morreram de velho mesmo.

Dezembro, II


nesta estação
balnear onde
tudo se lanha, onde tudo
tem ponta e se empenha
em lanhar, tudo se empenha
em lanhar-se, nesta estação balnear
onde tudo se repete, onde
tudo se lanha de repetições,
onde tudo maquina uma cura,
onde as engrenagens, os carris dentados
laboram incansavelmente por uma
cura, onde as máquinas nos querem
curados e repetem-se, os carris dentados,
a hipnose dos carris dentados, estes giros
sob o solroda, estas voltas sob
o solroda, esta correia invisível, esta
ciranda maquinal sob o sol, roda, nesta
estação balnear ex machina

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Dezembro


a todo o tempo
as coisas vêm

a um lume frio
zumbindo corredor fora

torres, fortes
espelhados, arranhaduras
em nuvens fugidas

(ninguém me convence
de sua inocência)

um talho seco
no céu, expediente
duma aridez incalculável

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Amígdalas


estou na Televisão
mas isto são folias de óptica
estou contra o escuro de pijama verde
verde refletido de pedras preciosas ou de águas
que banham costas as mais exóticas
o verde há de me lembrar qualquer coisa

doem-me as amígdalas
como que encruadas de pedras preciosas
pejo precioso que faz
silêncio
estou contra os lençóis mornos
mantas como bichos preciosos
que mortos viram
mantas
e fixo em meu próprio silêncio
estou contra a imagem que me faço
de esquimó
como Anthony Quinn
em fita de Nicholas Ray
caso é que as palavras
não são assim tão poucas
tampouco assim
sorridas

por exemplo
leio no jornal
os ursos brancos estão condenados
não hão de durar
o século fronteiro
nada fizeram de mal
os ursos brancos
nada fizeram de mal
os que não vão durar
o século fronteiro
mas estas mãos

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Testamento


se um belo dia eu morto e resolverem
pois não publicar um volume de
minhas Obras Completas faço eu
onde quer que esteja muito gosto
que o livro fazendo a fineza se chame
Desemprego.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Consultoria Sentimental Arthur Rimbaud


"Ora, você ainda não reconheceu que as raivas eram falsas tanto de um lado quanto de outro! Mas os últimos erros são seus, pois mesmo após eu o ter chamado, você persistiu em seus falsos sentimentos. Acredita que sua vida será mais agradável com outros que comigo: Reflita sobre isto! -- Ah, certamente que não! -- Apenas comigo você pode ser livre e eu juro que serei mais gentil daqui em diante e deploro toda a minha parte nestes erros. Tenho enfim o espírito livre, gosto de você; se você não quiser voltar ou que eu vá até você, será um crime e você vai se arrepender por LONGOS ANOS pela perda de toda liberdade e por sofrimentos talvez mais atrozes que aqueles pelos quais já passou. E agora, medite sobre o que você era antes de me conhecer."
(carta de Rimbaud para Verlaine, 5 de julho 1873)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Bodas


Vinicius de Moraes está morto Vinicius de Moraes morreu e foi para o inferno Vinicius de Moraes morreu e foi para o inferno e o inferno é um elevador o inferno condado que não se usa conjugar em outro tempo que não o tempo presente é um elevador Ele sobe com um pequeno soluço com outro pequeno soluço ele desce: as portas não se abrem jamais mas Vinicius está sujeitado aos compromissos dos demais hóspedes aquartelados neste presume-se imenso hotel Vinicius está aqui eternidade fora ouvindo as pragas entrecortadas dos demais hóspedes que batem de punhos às portas do elevador do inferno e justo agora que a eternidade em todos os seus estratos se lhe desvela Vinicius não pode escrever um poema assuntando todos os estratos da eternidade porque não há estilográficas no elevador no inferno nem lápis nem batom e dentre as coisas que não há no elevador no inferno contam-se igualmente uísque mulheres transatlânticos a rigor não há nada salvo Vinicius marchetado no espelho no elevador no inferno e essa máscara cuja ideação tomou-lhe anos sem falar da própria prática e do constante refinamento da mesma essa máscara está pegada a seu rosto e não sai mais Vinicius suspira ectoplasmático este que não é ao menos eu e contudo o que escolhi por mortalha este funesto dominó que não sai mais que não sai para nunca mais Vinicius geme e com um pequeno soluço o elevador desliza lento até o quinto andar e uma série de cruzados de direita nas portas fechadas do elevador do inferno eia isto é ponto pacífico que Vinicius de Moraes está morto pode-se considerar o assunto encerrado Eis tudo no coração de cada jovem enamorado um elevador sulfuroso

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Poema Matutino Escrito De Noite


quando em quando extrata-se
um grande provérbio
um grande adágio-em-gérmen
dum gato faltar
ao telhado que faz
frente à minha janela, (quando
em quando) alguém
que eu não sei quem
morre – inevita-se, mais precisamente
há duas semanas e meia, hoje
eu e a torcida do Flamengo
não aprendemos
nada que já não nos
pertencesse, acho que vou
tomar um banho e seguir
circulando (os círculos são
eternos) os Classificados

domingo, 30 de novembro de 2008

Traduzindo Keats


Um troço bonito
é uma alegria pra vida.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Credo, II



"Ah, but don't go home with your hard-on
It will only drive you insane
You can't shake it (or break it) with your Motown
You can't melt it down in the rain".
(L. Cohen)

domingo, 23 de novembro de 2008

Tempos Difíceis


"Eu tinha fundado toda uma cosmovisão escorada na recusa terminante a ler os jornais do dia. “Se um homem ignora o Daily Times, o governo se ajoelhará a seus pés, pois nos dias de hoje esse é o único ato autêntico de traição”. Thoreau, “A Vida Sem Princípios”. Eu fazia grandes idéias da modéstia e da renúncia; ia bem com a escassez de minhas finanças fazer grandes idéias da modéstia e da renúncia. Uma existência frugal; pequenos furtos à cantina rendiam-me as refeições noturnas. Grande risco também em contemplar-me nu horas a fio no espelho do quarto, posto que a porta não trancava (a desfaçatez de meus locadores). Eu andava cheio dum amor positivamente franciscano por tudo que me rodeava. Eu refluía ao essencial, à prima matéria, a divindade em mim. Eu tinha um onanograma; meus hábitos masturbatórios observavam disciplina espartana; duas vezes por dia a intervalos regulares – eu fazia amor com o mundo."
(do conto "Tempos Difíceis")

sábado, 22 de novembro de 2008

Duplos


Estaca frente a um
prédio nas cercanias,
salta do segundo andar
voz de moça e anjo. "É
música clássica". Ah.
Depoimento sofrido da carteira
de identidade: Mérilin; as raízes
pretas aparecendo. Adicta
a drops de limão e Grapette,
morta do mesmo jeito, só
que muito tempo depois,
as mãos de vime enganchando
retrato do único homem a quem
sobremaneira amara:

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Richard Brautigan


Tentando traduzir Richard Brautigan:

O Amor Não é Jeito de Tratar Um Amigo


O Amor não é jeito de tratar um amigo.
Eu não desejaria isso a você. Não
quero ver seus olhos esquecidos
num dia de chuva, perdidos na bolsa infinita
daqueles que nada se lembram.

O Amor não é jeito de tratar um amigo,
não quero te ver terminando desse jeito
com seu corpo sendo despejado como mármore
ferido na arquitetura dos que constroem
pontes com pássaros aleijados.

O Amor não é jeito de tratar um amigo
Há coisas bem melhores na vida
que ver seus sentimentos vendidos
como lanternas mágicas a alguém cujo corpo
não dá luz.

e no original

Love's Not the Way to Treat a Friend

Love's not the way to treat a friend.
I wouldn't wish that on you. I don't
want to see your eyes forgotten
on a rainy day, lost in the endless purse
of those who can remember nothing.

Love's not the way to treat a friend.
I don't want to see you end up that way
with your body being poured like wounded
marble into the architecture of those who make
bridges out of crippled birds.

Love's not the way to treat a friend.
There are so many better things for you
than to see your feelings sold
as magic lanterns to somebody whose body
casts no light.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um Fio


Muita coisa tomou claridade quando eu li os seguintes versos de "America" do Tio Ginsberg num ônibus aos 16 ou 17 anos de idade:

"Go fuck yourself with your atom bomb.
I don't feel good don't bother me.
I won't write my poem till I'm in my right mind."

Acabei de sacar que, mesmo sem me dar conta, torno a isso todo santo dia.

O Útil ao Agradável (Sete Linhas)


Há alguns meses me mudei para esse bairro que se chama Laranjeiras e fica longe e perto de tudo no Rio de Janeiro ao mesmo tempo. Não bastasse, a rua onde moro é como um principado no bairro já bastante próprio das Laranjeiras: a General Glicério, referida comumente por General, onde aos sábados, fazem música na praça e as gentes se conversam. É um lugar bonito, cheio de árvores, e emoldurado duma lógica toda própria. Um golfo de gente bem-apessoada de andar fácil e os rapazes estão sempre com instrumentos musicais a tiracolo. Escrevi um texto sobre isso, "Primeiras Impressões Sobre Um Bairro Novo". Mas não deu conta.

Desde então, andei entretendo a idéia dum "Diário de Estância". Cogitei um outro blog, alguma coisa que determinasse o quão paralelo o projeto de fato é. Cheguei a pensar se não seria esse o próximo livro. E seria mais ou menos assim: todos os dias, eu levaria meu escudeiro caderno até a praça e escreveria o que desse na veneta, torcendo para que aquilo de alguma forma se comunicasse com e comunicasse os arredores. Não sei explicar direito, mas é um lugar muito, muito próprio. O projeto já me veio epigrafado, até -- um verso do Pablo Araújo que nunca me saiu da cabeça, e é das coisas mais interessantes que já escutei: "Toda viagem é traição".

Pois, há coisa de alguns dias recebi convite do Sr. Visnadi para fazer parte do blog "Sete Linhas", e percebi que seria uma boa oportunidade de ensaiar o "Diário de Estância". Pensar a coisa praticando. Comecei hoje, e estou bastante empolgado a respeito. Daqui em diante, todas as quintas me abanco na praça com o escudeiro caderno e escrevo o que me chegar. Depois corro para casa, dou uma mexida aqui e acolá, e posto no blog. Gosto de pensar que é um exercício de soltura e possibilidade. Bainhas mal-feitas e tudo o mais. E tem aquele poema da Alice que volta e meia me chuta as canelas no meio da rua, o "Semínima": "Aqui, quase não temos lixo. A comida, vá lá, já tira a graça da coisa, mas lixo, lixo mesmo, bugiganga, isso a gente não joga fora."

É, é isso aí. Vamos revirando até encontrar alguma coisa.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Tabuleta


Isto é uma canção
de amor de cinema
de casa de despedir
-se de quebra de todos
os dias

Just in Time


"O carro me espera na portaria. Meu amante espera ao volante e parece calmo. Vamos a um barzinho na Glória onde um quarteto de jazz se apresenta semanalmente. A moça está cantando just in time, I found you just in time. Eu tomo rum e coca-cola e procuro evitar um coquetismo sem muita razão de ser. Mas é do horror, isso: vou me sentindo tão fria, a ponto de perceber minha própria pele escamosa debaixo do vestido de bolinhas. Peço licença, vou ao banheiro (ao toalete: fim do corredor, à esquerda). Fixo-me no espelho tempo que me parece bem longo. Arroubo de didatismo: quero mostrar ao mundo como se pára.

Pensa, Geórgia, pensa: isso é qualquer coisa com a cabeça, mas está muito longe de pensar. Deve haver um meio-termo, deve haver um meio, que seja, é preciso ser precisa, estratégica, certeira, e acima de tudo, calma, que tudo tem a sua ocasião própria e há um tempo para cada propósito debaixo do céu (sempre me acontece de lembrar passagens bíblicas em banheiros de bar). Estendo a corda-bamba da porta do reservado à mesa e vou, salto ante salto, um banquete de cosmopolitismo camicase. Sento, um sorriso que quero discreto, um olhar que quero afiado, um tipo que quero Grace Kelly, em suma, trato de iludir-me de um perfeito equilíbrio da forma.

Não posso deixar de notar a naturalidade com que meu amante se conduz, é possível que tenha experiência nessas sordidezas, mas isso não me concerne. E mais, e que difícil aceitar que: não me sinto nem um pouco sórdida. Não, absolutamente. Rebusco a garganta atrás de alguma amargura subliminar e nada e digo nada e quero dizer: porra nenhuma. Pra não dizer que não tento – insto a consciência a berrar em termos os mais grosseiros -- esse sujeito tem dona, esse homem fede ao mijo de outra.

Em pura perda.

Sou Grace Kelly.

Estou intensamente feliz. Janto com um homem levemente estrábico de belo perfil, tomo rum e coca-cola e a moça do quarteto de jazz canta just in time, I found you just in time.

Mas eis que ele resvala ao fim da noite; gagueja ao enunciar a palavra "motel". Interpreto isso como uma tentativa de me comunicar certa consciência de certo e de errado, sinto que ele quer me impressionar com esse lampejo de culpa. Intentando contornar maiores complicações, coloco a mão sobre a virilha de meu amante. Conjeturo introduzi-la em sua calça mas temo que ele perca a direção do automóvel".
(do conto "A Desatenção")

Ted Berrigan, II


Tentando traduzir outra do "Sonnets":

III
Mais forte que o álcool, mais grande que a canção,
fundo em cujos juncos grandes elefantes se deterioram,
Eu, uma ilha, navego, e minhas enseadas jogam
numa noite fragrante, referta de tristeza
ódio eriçado.
É verdade, eu choro demais. Amanheceres nascem
beijos lentos nas pálpebras do mar,
o que os outros vez em quando julgam ter visto.
E desde então estive me banhando no poema
erguendo suas flores sombreadas para mim,
e arrojadas por furacões a um lugar sem pássaros
as bandeiras despregadas, tampouco passo naus carcereiras
Ah deixa-me estourar, e estarei à deriva!
e caio de joelhos, moçamente.

e o original,

III
Stronger than alcohol, more great than song,
deep in whose reeds great elephants decay,
I, an island, sail, and my shores toss
on a fragrant evening, fraught with sadness
bristling hate.
It's true, I weep too much. Dawns break
slow kisses on the eyelids of the sea,
what other men sometimes have thought they've seen.
And since then I've been bathing in the poem
lifting her shadowy flowers up for me,
and hurled by hurricanes to a birdless place
the waving flags, nor pass by prison ships
O let me burst, and I be lost at sea!
and fall on my knees, womanly.

Ted Berrigan


Tentando traduzir Ted Berrigan:

II

Querida Margie, alô. São 5:15 da manhã.
querido Berrigan. Ele morreu
De volta aos livros. Leio
São 8:30 da noite em Nova Iorque e estive numa correria o dia inteiro
velhos vinde-ver-quens vadiam rua adentro. Sim, é agora
Quanto Mais Tempo Serei Capaz de Habitar o Divino
e o dia é cinza claro ficando verde
feminino esplendoroso e durão
vendo o sol se levantar sobre o Pátio da Marinha
para escrever corpo de durex no caderno
tomei 17 miligramas e meio
Querida Margie, alô. São 5:15 da manhã
fodi até às 7 agora ela está atrasada para o trabalho e eu tenho
18 anos então por que minhas mãos estão tremendo eu devia ser mais esperto

e o original,

II

Dear Margie, hello. It is 5:15 a.m.
dear Berrigan. He died
Back to books. I read
It's 8:30 p.m. in New York and I've been running around all day
old come-all-ye's streel into the streets. Yes, it is now,
How Much Longer Shall I Be Able To Inhabit The Divine
and the day is bright gray turning green
feminine marvelous and tough
watching the sun come up over the Navy Yard
to write scotch-tape body in a notebook
had 17 and 1/2 milligrams
Dear Margie, hello. It is 5:15 a.m.
fucked til 7 now she's late to work and I'm
18 so why are my hands shaking I should know better

Isso é do livro "The Sonnets". Siderante.

domingo, 16 de novembro de 2008

O Pôster de Vasarely: Um Mistério


para Isabela Mota

quadro. Olho pela janela do quarto
de Isabela e meu corpo é denso, deslocado
de um pé ao outro. Funda-se.
A xícara de café sobre o parapeito.

Pareço aplicado. A canção acaba há
horas, a canção se aplica, um visco
se pega aos lados da garganta é o que
te resta da canção. A meu lado
um violão de aspecto bronquítico
se escora contra uma quina. Uma quina
branca. Lá vão meus olhos atarraxados
na calçada mosaico imprestável.

Estamos a poucos metros. Uma coisa
chã. Uma coisa rés. Nesta pasta um pôster
de Vasarely cuidadosamente dobrado ao meio,
pelo qual agradeço, como de hábito,
um tanto derrapando-me. Isabela ruiva conta
que em dias nublados a Jeune Femme En Chemise
à porta de seu quarto como um
marimbondo se esverdeia um pouco mais &
em dias de sol a Jeune Femme En Chemise
à porta do quarto de Isabela como
um marimbondo alça o canto
oculto do lábio, sorri, talvez por ter
recebido boas novas de um médico
barbudo & monoculado. Isabela
ruiva me faz presente dum pôster
de Vasarely – é quarto novembro quente
calçada pasta café violão livros
abertos sobre a cama
de Isabela – não será este o poema
pelo qual esperei minha vida inteira?

Vamos sempre constatando
que nada rufou. Neste
entroncamento, um pôster de Vasarely
cuidadosamente dobrado ao meio. O que dizer,
minha irmã, por que dizê-lo?
Desdigamos. Não somos espiões.
Não há filme nesta câmara. Podemos supor
com alguma segurança que algo de muito
central acaba de nos acontecer,
enquanto você se ocupa em fazer
as malas – algo de muito central,
onde acidentamos – para logo depois
o telefone soar seu apito
de UTI, e uma voz metálica
nos passa uma senha e um endereço nos
arredores da cidade. Sim, talvez
seja este o poema que vim escrevendo
minha vida inteira

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Rafael ´James´ Monte


"Doris Day é o diabo que te carregue".
(Rafael 'James' Monte, "Marx Responde")

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um Reencontro


peso em teu corpo um gosto
da tua leveza, grupo de festa,
carnê de baile, volta

de serpentina de outros carnavais,
afinal, eu me equivocara,
acabou a temporada do medo,

escusado tudo que não é
minha vida, você me vai
muito suave

Laura Nyro



"Well, I got a lot of patience, baby
That's a lot of patience to lose".
(Laura Nyro, "When I Was a Freeport & You Were The Main Drag")

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Para Ver Esses Retratos,


o olho,
concha
sem marulho

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Noite Larga na Arquibancada


segure
seus cadarços. Hoje à noite ninguém
se mata. Nenhum corpo calha
se estender sobre as telhas
desiguais. Nenhum vôo. Tudo
há de correr bem quieto, a hora
descomposta. Bom,
cá estamos, no meio da rua,
não há mais violinos em coisa
nenhuma, não estamos,
não estamos dançando?
Não estamos dançando? Segure
seus cadarços, ouviu
bem? Hoje à noite ninguém
se mata. Estaremos felizes,
inexatos, esgoelantes,
noite larga pela arquibancada,
sorri. Me abraça.
Pelo amor de Deus, olha
a droga do passarinho

Geraldão Lá!



domingo, 2 de novembro de 2008

O Primeiro Leitor



José Castello escreveu uma bonita reflexão sobre o "Synchronoscopio" lá no Prosa e Verso, d'o Globo. Um texto muito atento, muito disponível. Eu, daqui, só posso dizer como é bonito quando alguém não lê nem contra nem a favor: lê junto.

Grande momento, de verdade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Tevelisão


Pois. Quarta-feira, dia 29, dou pinta lá no Atitude.com, programa da TVBrasil apresentado por Liliane Reis, debater a importância da escrita no cotidiano das pessoas. O programa vai ao ar às 18:00, e é ao vivo.


Não tão perto, Sr. DeMille.

Faz Escuro


A dispersão
é a única coisa
que me mantém acordado.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Phil Ochs




"Do you have a problem?
Would you like someone to solve 'em?
Would you like someone to share in your misery?

Now, I don´t know the answer
But I know a flamenco dancer
Who will dance for you if you will dance for me

Her name's Miranda
She's a Rudolph Valentino fan
And she doesn't claim to understand
She bakes brownies
For the boys in the band".
(Phil Ochs, "Miranda")

sábado, 25 de outubro de 2008

Introdução ao Baile, II


"Por causa de quem você segue vivo? Você fica, ou você vai, você se permite deslocamentos muito pouco práticos e as mais incômodas paralisias, e isso tudo por quem? Quem que te atiça tanto ao ponto de fazer as coisas que você faz ou mesmo ao ponto de fazer qualquer coisa? Já não é bastante absurdo, isso de ficar fazendo coisas a todo o tempo? Mudar de cidade, de país, de continente, cogitar os anéis de Saturno? Quem são teus motivos? Tuas motrizes? Quem dá a cartada, e o que há nessa cartada que ela é tão alguma coisa ao ponto absurdo mais-que-absurdo de você se sentir compelido a dar uma cartada de volta, a reagir, a não estar morto?"
(do conto "Introdução ao Baile")

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Daniil Kharms


"Caro Aleksandr Ivanovich,

Ouvi dizer que estás juntando dinheiro e que chegaste já a trinta e cinco mil. Para quê? Por que juntar dinheiro? Por que não partilhá-lo com aqueles que não possuem ao menos um par de calças totalmente extra? Digo, que é o dinheiro? Já estudei essa questão. Possuo fotografias das cédulas mais vastamente circuladas: no valor de um rublo, três, quatro e até mesmo cinco rublos. Já ouvi falar de cédulas com valor intrínseco de até trinta rublos de uma só vez! Não obstante, no que tange seu acúmulo: para quê? Bem entendido, não sou um colecionador. Sempre desprezei colecionadores que cumulam selos, penas, botões, cebolas e quetais. São tolos, gente enfadonha e supersticiosa. Sei, por exemplo, que os chamados “numismáticos” – são os que acumulam moedas – têm o hábito supersticioso de guardá-las, imagine onde! Não sobre a mesa, não numa caixa, mas... dentro de livros! Que achas disso? Enquanto o dinheiro pode ser tomado, levado a uma loja e trocado, bem... digamos, por sopa (isto é um tipo de comida), ou por molho de tainha cinza (igualmente coisa de comer).
Não, Aleksandr Ivanovich, és um homem quase tão refinado quanto eu e, no entanto, acumulas dinheiro sem transformá-lo num leque de outras coisas. Perdoa-me, caro Aleksandr Ivanovich, mas isto não é muito esperto! Ficaste um pouco tonto vivendo na província, é tudo. Não deves ter nem com quem palrar. Envio-te a minha fotografia para que, pelo menos, tenhas diante de si um rosto inteligente, cultivado, intelectual e de primeira grandeza.

Teu amigo Daniil Kharms".

Aríete


(21 de outubro de 2008. Amanhecer)


é lento e de inúmeras
investidas
tornar-se
uma outra cor

numa estação
as ventas do trem
das sete
põem-se doidas diante
da manhã lilás
mas antes de mais nada
as minhas costas voltadas
sem paletó

aos 23 anos de idade
tornei-me ladrão internacional de partidas

mas não saberia precisar
se isto que caminho agora
é fuga

me parece contrário
sem pressa
me parece algo como passear
e quem sabe dobrando
a esquina não resolvo
ser bem tarde
abrir os braços
entre os obuses

nunca se sabe

tenho 23 anos
e suspeito
mais nenhum adeus em mim

tenho 23 anos
deferente deixo
inomináveis
os últimos 22

domingo, 19 de outubro de 2008

Depois


Um movimento de dedo nenhum
sobre o interruptor, os fusíveis
intactos. Teste. Sim, a casa funciona,
a casa está acesa. Um silêncio precipitado
entre eles, um silêncio que conta com todos
os artífices do hábito. Um de olhos se pendura
no teto nas pálpebras, o outro segue bastante
mágico pela estampa da almofada. Pensam
móbiles e o que de mais não sabem.
Em qualquer outra parte os olhares
estão encontrados. Um abismo
alegre. Eles têm uma
estranha confiança, vinda
sabe-se lá de onde. Teste, 1-2-3,
teste. A casa está funcionando.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Credo



"Stories don't interest me".
(Robert Altman)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Coisas Se Passando Num Parque


por que tanto tempo no observatório das coisas que se passam no parque? Os espocos, a música vermelha vinho em galão teiado de vime? Mas por que o coreto parece de repente tão nu, e essas trancas de metal, ainda vigas? É primavera, talvez. Uma partida de oitavas e a lua, travesti obeso. Todos de saída de seus cursos de teatro, e seduzem-se. Com pop do início dos novecentos e noventa – mas também, quem nunca fez isso? Me enteio da pergunta, eu aqui, bastante quieto, pensando tudo um argumento, mas francamente apavorado de acender o próximo cigarro. Faça uns planos, quaisquer planos, você devia estar é fazendo planos, a pilot e papel kraft, que papel kraft não serve só para blindar os janelões, serve também para fazer

planos. Tampo os olhos, faço como quem genuinamente se perde? Ó, donzela. Três acordes catados à exaustão num pinho que nem se usa mais chamar assim, a palavra Catarse faz sua primeírissima aparição da noite. Isso está em roda. Isso tudo está em roda. Todos saídos de seus cursos de teatro, falando Catarse e cantando qualquer outra coisa. Por que escrever sobre as coisas tão jovens que se passam no parque? Por que não sou mais assim tão

e me maravilho? E me maravilho desses corpos semi-nus e dessa incrível parolada, cabacenta a despeito de si própria? Terão eles as cores das latas de lixo e da fachada do Corpo de Bombeiros? E eu, que cores eu? O que querem, esses atores? Tirar a própria camisa, tirar a camisa dos outros? Um papel na novela das seis e um estoque vitalício de haxixe? Tio Vânia? Shakespeare? Todos saídos de seus cursos de teatro, falam Zé Celso e cantam qualquer outra coisa. Eu estou para ficar? Não

a lua assoma grande por detrás das montanhas, e talvez seja princípio de incêndio no terraço do vizinho. Uma latinha é todo o trajeto de volta, e sou como a prévia encarnação de todos os outros os outros os outros e sou, afinal, como todos os outros, chegando em casa, saco dum pilot e faço planos no papel kraft que reveste os janelões do quarto. Planos. Planos para o futuro. Todos eles usam brincos, astericos que rebatem lá embaixo em nota de rodapé com os seguintes algarismos: dois zero um dois. Dois mil e doze. Garantir ingresso à cidade-modelar. Aprender como se faz na selva. Chupar o Messias vindouro. O mundo vai infalivelmente acabar e eu aqui ah Deus e eu aqui

apavorado de acender o próximo cigarro.

domingo, 12 de outubro de 2008

Antes


estou por te abrir minha boca
mostrar a garganta vermelha

por acender as luzes frias
da cozinha -- e a esfinge
de louça encardida

estou por descerrar os dentes
morder o ombro que me prensa um uivo
cheio de obturações

e isto daqui você
deve ter reparado
é primeiro passo
ao passo dum possível
nu

numa carreira
dos olhos num
pisco ribo
à porta da tua vila
com meu estúpido chapéu de festa
daqui a pouco as velhas começam
a matracar no quintal

e nesse breu
onde tudo afinal
chega a horizonte
os gatos fitam
feito furgões
estacionados no fim
da rua
e com as minhas peço
da tua mão
e há então essa irmandade
das armas brancas
e sou duma quietude
a bem pouco de sombra

sábado, 11 de outubro de 2008

E correlatos.


"- Você acredita nessas coisas?
- Que coisas?
- Essas coisas.
- Deus?
- E correlatos.
- Nem mais nem menos do que em todo o resto.
- Você pensou demais antes de responder.
- É costume.
- No batismo, sabe, dizem que o carimbo de Deus fica na sua testa, não sai nunca mais. Quando eu ouvi isso pela primeira vez, eu não tinha nem onze anos, mas quando minha avó Benvinda me disse isso pela primeira vez, sei lá, eu achei aquilo tudo tão agressivo, isso de ter um carimbo que não saía da minha testa nunca mais, em suma, ficou uma impressão tão funda e desagradável que eu comecei a lavar a testa com detergente antes de dormir. Isso porque as propagandas de detergente me fascinavam naquela época. As de sabonete eram suaves demais, com mulheres compridas saindo do box e se enroscando em roupões felpudos, e as flores e as cortinas balançando e tudo o mais. As de detergente não – eram duras, e sempre iam naquela base do nenhuma sujeira pode com este excepcional produto. Eram mais bélicas, as propagandas de detergente, mais... totais, não sei, era essa a impressão que eu tinha. Digo, se o caso era me livrar duma mancha desse naipe, eu só podia recorrer a um detergente, sabe, um desses que prometiam dar cabo de toda e qualquer impureza. Fato é que eu ficava no meu quarto, esperava meus pais se recolherem e descia para a cozinha na ponta dos pés, pegava o detergente e ficava esfregando minha testa com a bucha. Isso durou pouco, porque eu ficava com a testa toda esfolada, e as pessoas começaram a fazer perguntas, o que era de se esperar.
- E o que você respondeu?
- Não lembro agora, mas nada que ver com a mancha. Chegaram a me levar num alergista."
(do conto "O Homem Santo de Jodhpur")

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Atenção: Lança em Montes Claros Cancelado




Por conta duma série de trapalhadas, estou impedido de lançar o Synchro em Montes Claros amanhã. Agradeço o convite da mesma forma, e espero que o evento seja de dar volta ao miolo.

Synchronoscopio Does Minas




Hoje estou de parte para Montes Claros, MG. Amanhã mesmo (sábado), no Mercado Central Christo Raeff, tem lançamento do Synchronoscopio durante as festividades do Salão Nacional de Poesia "Psiu Poético", capitaneado pelo Aroldo Pereira. Não sei muito bem o horário, mas deve ser início da tarde. Quem estiver por lá, apareça!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Vácuo e Meio


R. recuperou os movimentos
faciais. Me aparteou
a caminho do banheiro masculino.
Perguntei do aborto. Ao que parece
tudo correu bem. Estão reunidos,
o tipo da coisa que atua
como solda. De prever
que ele desista do teatro
e torne aos negócios
da família. Exportação?
Não sei. Faz tanto
tempo. Ao que parece
ninguém se feriu. No dia seguinte
toda a cidade foi votar
chovia fino e cortoso

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Outros Resgates


05/10/05

Uma fórmula: comedimento e coração.

06/10/05

O que dever aos meus contemporâneos:

1. O projeto de uma literatura que não passe sem a percepção direta, mas que atue majoritariamente como undercurrent.
2. Certa inconsistência estilística.
3. Vastíssima ignorância.
4. Preguiça.
5. Ansiedade.

Ilustro: estou na frente da Biblioteca Nacional, e estou completamente apavorado.

***

Súbita necessidade de sonhar com estrondo ou algo maior.

12/10/05

Que é o destino de todo o carinho – a repetição.

13/10/05

Penso nele e isso vai dar numa estranha sensação de espaço dentro, frio acre que culmina como que numa contração. E na esteira desse cordão de fatos físicos, a certeza de ter um coração, marretando grosso, talvez presidindo esse espaço que se tenta dobrar sobre si mesmo.

A mão espalmada da Lua sobre a Lagoa. É pena que o Cortázar não tenha fabulado umas Instruções para Esquecer.

14/10/05

G. diz que sou anacrônico até dando bom dia.

18/10/05

Me dou o seguinte conselho no ponto de ônibus: não fala, homem. Volteia, gira, circula, mas não diz: solidão. É só um mediador entre você mesmo e o estado que corre. Curto-circuite a palavra, a palavra em si. Dela, diga uma presença, uma coisa. É fazer magia negra, dizer só: solidão, e fica por isso mesmo. Diga dela. Faça um verbete. Uma prosa para ela. Mas não diga, homem, não diga.

19/10/05

Ontem desci Santa T. no meio dum blecaute. O escuro descia tão veloz que eu quase achei que estava apaixonado de novo.

***

Nunca encontro tempo pra nada. Isso me deixa duas opções bem claras: morrer um zero à esquerda, ou simplesmente não morrer.

20/10/05

Um yuppie alcóolatra discute com sua mãe na mesa ao lado.

Ele não tinha as GÔNADAS que eu tenho. Não tinha os meus testículos.
(a mãe sussurra qualquer coisa, olha em torno, constrangida)
GAY, mãe, ele era GAY. Não era macho que nem – eu sou macho pra caralho, tenho muita testosterona no sangue, nem consigo me controlar”.

Eu te conheço há 34 anos, mãe, você é uma professorinha que nunca nem conseguiu administrar uma empregada”.

Lembra das aulas de português que tu me dava? A porrada COMIA, mãe. Mãe, tu se lembra do relógio digital que meu avô me deu? Tu se lembra da dificuldade que eu tive pra aprender a ver as horas? Então eu vou te recordar. Recordar é viver”.

Hoje é meu dia de folga, tô bem pra caralho. Minha terapia é ganhar dinheiro, muito dinheiro, é sair daqui”.

“Eu já absolvi toda a maldade que você me fez. Eu gosto muito da minha família, apesar de todos estarem me cortando. Eu vim aqui pra me divertir. Tá absolvido, tá absolvido, tá resolvido, tem um real trocado aí?
”.

Eu rezo todos os dias, sabe? De manhã e de noite”.

O mundo é mesmo um bueiro em vias de estourar.

21/10/05

C., 54 anos.

Eu sabia que estava grávida quando não conseguia tomar café. É que é a primeira coisa que eu faço de manhã, tomar uma xícara de café. Então toda vez que eu sentava e o café não descia, era batata: porra, tô grávida”.

22/10/05

Vejo Clarice, vejo Caio F., não sei se me enxergo.

03/11/05

Dinheiro, o mínimo de saúde física e mental.

Minha vida por chegar. A minha vida. Isso aqui é qualquer coisa com os outros.

07/11/05

“Roleta Chinesa”, Fassbinder.

18/11/05

Heartbreak não tem hífen.

07/12/05

Dezembro vai leve, longe do desespero do ano passado. Teria sido o suficiente pra desgraçar qualquer dezembro, mas esse até que não faz tanto peso, de modo que reconheço, isso aqui dependurado nas costas sou eu mesmo. Caso é que quero calmaria e só encontro tristeza.

09/12/05

Há de haver um nome de gritar quando nenhum outro sentimento é possível. Você me faz um disfarce. O álibi perfeito.

12/12/05

Ah, uma cabeça sobre os ombros certamente me botaria doido.

15/12/05

“... and all my pleasures are like yesterday”.
(John Donne)

Ei-lo Homem
não vazio
mas se esvaziando
coçar é uma arte
poucos têm unha o suficiente
para passar o dia inteiro vazando

26/12/05

Esperar por alguém – no meio da rua, começando a chover – é esperar por todo mundo. O diabo é a espera. É o elevador que não chega, o ônibus que não vem. E tem que ser sempre por alguma coisa.

Não gosto de escrever no meio da rua, pareço um espetáculo.

6/01/06

Jogo com Espelhos
(na frente do cinema Odeon)

Ele saca dum pequeno bloco vermelho. Na distância astigmática, diviso rabiscos pretos fortes. Ele tem feições portenhas. Deve se levar a sério como um velho tango – olhos azuis espremidos e tudo o mais. Antes ele estava esparramado sobre o banco verde. Agora todo cabelos ao vento, barba e sorriso como que traçados com pressa. Um vento forte varre a Cinelândia. É o primeiro dia de sol depois da virada, e a próxima sessão é “Os Amantes”, do Malle. Estou ficando emocionado.

15/01/06

Os olhos doem. Talvez eu abra uma janela.

Resgate


(10/01/06)

Tenho lido
Piva
acampado em cafés
depois do trabalho
e cães ladram para
Botafogo.

Aguardo a hora
de tomar o metrô
para ver meu amante
no último ponto
falar das coisas
que de dentro
dos cavos inócuos
do ser
nos aconselham o não-entendimento
(estas idéias intragáveis).

Há uma semana o ano
se consumia
em sarabandas
licorosas de fogos
de artifício
e umas tantas vezes me achei
doente e outras tantas
às vésperas dum degelo
e duma explosão de alegria
pura
ainda que não totalmente isenta de químicos.

domingo, 28 de setembro de 2008

Beira de Domingo Chuvoso


perco as chaves do dia


quero atear fogo
à lixeira
o isqueiro acabou


eu me engasgaria
dos meus próprios sinais de fumaça

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Introdução ao Baile


"Quem são as pessoas que você realmente ama? Quem são as pessoas que não te fazem nenhum medo? Que não te fizeram medo nem no princípio, lá onde tudo deve, forçosamente, ser medo? Quais as pessoas que ainda não te partiram a cara em duas? Que não te acertaram um uppercut enquanto acenavam, distraídas, para o garçom? Por quem você esperaria num parque, numa manhã de inverno, com o mundo inteiro em volta exigindo explicações? Quem? Quais?"
(do conto "Introdução ao Baile")

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Eu e Minha Analista Numa Ilha Deserta



Evito dizer certas coisas à Dra. Janice porque, depois de tantos anos de tratamento, já não me parece direito demonstrar certeza nem do pouco que tenho certeza. Certamente, nesse estágio de nosso relacionamento, afirmar qualquer coisa – sim, qualquer coisa – equivaleria a interromper o mais delicado foxtrote do Universo e sair enfiando a mão por dentro da saia de minha parceira, um faux pas agigantado a proporções atômicas, impensável, absolutamente impensável que depois de tantos anos de intenso convívio (3 sessões semanais), criamos, afinal, nossa própria Terra do Nunca Semântica, conseguimos uma codificação tão própria, tão inchada de ambivalências, que, mesmo depois desse tempo todo, Dra. Janice ainda não sabe de meus (maus) hábitos etílicos, nem eu faço muita idéia de que linha ela segue (por exclusão – Reich não, Lacan idem – chego à hipótese de Freud com uma pitada de Jung aqui e acolá), o que acontece então, e com certa freqüência, é ir-me tateando no longo de nossos encontros até dar no mais fino estado de abstração mental (não sei se existe outra espécie de abstração – espiritual, talvez? desenvolver), fico epifânico, chego a incorrer linguisticamente em dialetos extintos, depois caio no chão e fico lá inerte por alguns instantes, sacudido vez ou outra por espasmos, e em tornando a mim, bom filho que sou, olho para o lado e descubro Dra. Janice imóvel em sua poltrona, calculo que se manteve imóvel durante todo o acontecido (que controle!), e ela me parece toda uma ambiência moralizante e reta, consumida pela maciez de sua poltrona de couro, vista entre as patas da raposa empalhada sobre a mesinha de centro, não há nada a fazer senão erguer-me, apertar sua mão, e dar-lhe as devidas congratulações, louvando-lhe a força e a seriedade em seu trato comigo, seu trato comigo de tantos e tantos anos, e então ela diz que estamos fazendo um ótimo trabalho, todo esse tempo, um ótimo trabalho mesmo, um progresso verdadeiramente arrebatador, e ela sorri e pisca o olho direito, e eu sorrio de volta piscando o olho esquerdo, marchamos lenta porém inexoravelmente aos limites do símbolo.

sábado, 20 de setembro de 2008

Aos Ossos Que Tanto Doem No Inverno




Hoje (domingo) é o último dia da re-temporada de “Aos Ossos Que Tanto Doem No Inverno”, lá em Sampa. A peça é do grande Sergio Mello, e a direção é de Soledad Yunge.

O entrecho se recusa. A experiência é o que conta. Todo mundo tão entregue, todo mundo tão lá, não dá pra perder.

Toda a gente ali é colossal.

Aqui no Rio, é cruzar os dedos e esperar o pessoal chegar, chacoalhando algum castiço Sesc da vida.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Função de Fuga


ah, ser jovem
ser poeta e jovem
e remexido
num caixote de feira
interestadual (semi-leito
de morte?) e ah,
ter defronte de si
nada além dum pé pelado
de serra
e as ancas
monumentalmente paradas
deste velho caminhão

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Baldeação



sempre que em trânsito
a mente não consegue tomar o partido
nem dos romances passageiros
nem dos reconhecimentos de vida fora

julga todas as crianças
de alguma forma
perdidas

lembra da Veronika Voss
dizendo algo como toda a gente
fica mais bonita quando se despede

repara numa das bodegas da Rodoviária
chama-se Viajantes
acha isso poético
então mete isso num poema
torcendo para que isso se torne
de alguma forma
poético para os outros também

é difícil escrever de dedos cruzados.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

São Paulo!



Alô, alô!

Você ligou pra Alice e pro Ismar. No momento estamos fazendo as malas. É que vamos para São Paulo lançar nossos livros ("Dobradura" e "Synchronoscopio"). Vai ser nessa sexta, dia 12 de setembro, na Mercearia São Pedro. Fica na Vila Madalena, Rua Rodésia, 34. Começa às 20h. Esperamos você lá!

Bip!

583


nenhum de nós é feito, penso

pássaro

voar é sonho baixo
um besouro manco
percorre a passo
a janela – planície
ensolarada – do 583
e eu

e tudo é súbita
correspondência da palavra
espera; um sol que vai alto
de tontear os romeiros;
o dia, a ordem
do dia
via headphones

esperemos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Poema Que Lars Stephan Nunca Vai Ler


(isso é o Lars Stephan. ele tira fotos de si próprio. como vocês podem reparar, ele é bastante bonito, e ele parece sofrer uma consciência agudíssima de ser tão bonito. abaixo, um poema leviano escrito em sua homenagem, que eu posto aqui única e exclusivamente porque minha rumeite está escutando "In a Sentimental Mood" e hoje é meu aniversário, e estou me sentindo indulgente, como quem faz carreira de tirar fotos de si próprio)

se o ano é mil novecentos e cinqüenta e dois e sou um para-quedista prestes a saltar dum avião e à soleira desse céu azul e gáseo eu berro – dando guerra a esse céu azul e gáseo – ANTÍNOO!

e salto. É bem possível
que eu me esborrache. Você não devia
ficar peregrinando por aí como se a beleza
fosse coisa tão nova. Não se deve negar
à beleza uma história. Um passado.
Por que você fica saltando de país em país
como se a beleza fosse boletim divulgado
semana passada? Que empáfia

você vai me beijar agora? Não? Olho para minhas sandálias
olho para a ponta do meu dedão coço a virilha
discretamente. Você vai me beijar
agora? A beleza não é coisa assim tão nova.
Campear a própria beleza não é coisa assim
tão nova. Veja esse postais. Veja esse polígono. Veja That Boy,
com o Peter Berlin. Você
balão o hélio de sua própria beleza, será
sua voz idêntica a daqueles esquilos de desenho animado?
Você me entoará, com voz de esquilo de desenho
animado, vou te beijar agora? Você sobreviverá
ao advento do cinema falado?

Eu acendo velas aromáticas peço um
jantarzinho frugal no restaurante aqui do lado
finjo que passei horas escravizado na cozinha – e agora
você vai me beijar? Eu estou tão feliz eu estou tão feliz
gasto meio rolo de papel-toalha enxugando as lágrimas
eu sou pobre e, como você já deve ter reparado, não há
um espelho sequer nessa casa. Não há um espelho sequer
nessa casa. Pare de procurar.

Você é tão bonito eu quero jogar lírios caixotes e garrafas meio cheias de vinho
em você quero esconder suas roupas e te apresentar à minha bisavó Carmen
quero que você descubra a pistola escondida debaixo do meu travesseiro
e chore e peça que eu vá a um psiquiatra.

Agora, só me apareça aqui de novo quando o café estiver pronto. Não, a beleza não
é coisa tão nova assim. A certos ângulos, ela é até bastante vulgar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A Próxima Atração


para a próxima atração
calculou-se a metragem
de cada palavra

mandamos colocar esquadrias
em volta das pausas

analisamos a acústica dos templos
gregos e dos banheiros azulejados
de nossas avós

desfizemos o nó
górdio

enfim

minuciou-se tudo quanto
se podia minuciar

em defesa duma balada
de ângulos retos
planos cartesianos
capim ressequido
hora marcada pro trem sair
& nenhum desespero
meus senhores
nenhum desespero

a próxima atração
poderá até dizer
dum certo desespero
mas será com dicção impecável

para a próxima atração
iluminamos o palco de modo
a transformar o jorro da consciência

num regatinho

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Humberto


"Meu terceiro funeral esse ano, pensou Fortes, sem contar o do Humberto, em Fortaleza, que não foi exatamente um funeral, antes uma festa junina.
A cerimônia tinha sido bem bonita, disseram-lhe em seguida. Humberto fora o único de seus colegas a deixar por escrito que queria ser cremado – e não no Rio de Janeiro, onde fizera sua vida, tanto em termos pessoais como acadêmicos, mas no seu lugar de origem, na sua, por assim dizer, nascença. Feito o traslado do corpo, deveriam incinerá-lo o quanto antes, depois salpicá-lo pelo mar de sua infância, e que estivesse brabo, o mar de sua infância, de preferência, porque era assim que Humberto fazia questão de ser recebido – por quem? –, com tumulto. Diletante, pensou Fortes, diletante até o fim.
Amador."
(do conto "Um Casal")

Edward Lear




"There was a Young Lady of Lucca,
Whose lovers completely forsook her;
She ran up a tree,
And said, 'Fiddle-de-dee!'
Which embarassed the people of Lucca."
(Edward Lear)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Check Me Up


tabagista -- em torno de 30
cigarros por dia -- álcool em quantidades
consideráveis -- nível de stress: um bocado
alto -- nenhuma atividade física. A seu favor

bom, você é bem novo.

Tanto que na escada
do edifício acendo um cigarro
e começo a dançar Prefab Sprout
(perversão de pequena montra)
(vou viver!)

aperto o botão errado
na melhor parte da canção.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Maria


"Como se fosse ontem: a Maria toda um brilho oco, boneca feérica girando nos braços do Roberto, não tinha olhos, nem pernas, nem braços, nem boca – para mais ninguém. Consumida, pensei, consumida, o que era novo, o que era um atributo novo, em se tratando de Maria, mulher que nunca me pareceu consumida de coisa nenhuma, mesmo quando se dizia transtornada – mesmo quando me telefonava, de madrugada, pedindo que eu viesse até sua casa o quanto antes, dizendo que não podia mais consigo mesma, se ficasse mais quinze minutos sujeitada à própria companhia naquela casa imensa e escura acabaria fazendo uma bobagem, que ela pagava o táxi de ida, que ela pagava o táxi de volta, que a gente podia ficar até de manhã se refestelando no uísque importado dos pais, mesmo quando ela se oferecia para pagar o táxi de ida e de volta alegando-se: completamente transtornada, eu já previa aquela dureza de rosto que ceifava na raiz qualquer expressão discernível, os olhos baixos, os cabelos ruivos, bagunçados, o porte que a minimizava, muito embora fosse muito alta, a Maria, muito mais alta do que eu, muito embora alguns centímetros mais baixa que Roberto, Maria me recebendo no portão com calma principesca, ao lado do vigia noturno, o trenchcoat do pai mal disfarçando o pijama em motivos náuticos, e a boca dela fazendo bem devagar e assim: que bom que você veio."
(do conto "Uma Vingança")

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Quarto


olha não
muito fundo
presença
sem mundo
compare-se
ao chuvisco
que orvalha
a largada da noite

quase tudo
quanto existe
é um quarto

a intervenção frontal
duma imensa paisagem
que consegue ser a mesma
a todo o tempo à força
de nunca parar quieta

um pouco
quieto
fica – o mesmo
quer calar
a queixa
de não ser
panorâmico
mas não – não consegue
calar
de ver
e não ver
tudo (presença
sem mundo)

costados
da coisa um isto
que se agita
protesta reivindica
-se todo

guarda em silêncio
a linguagem que o carreia
para longe – possivelmente o Diabo

sábado, 30 de agosto de 2008

Cartas


Chove muito no bairro novo, meu parecer sobre a forja dessas cartinhas continua desfavorável, na verdade, torna-se cada vez mais desfavorável com o passar dos anos, de uns tempos para cá tenho, de fato, achado essa coisa de escrever cartas ato não apenas imbecil, como moralmente aviltante, fiz questão de banir todas as correspondências completas da minha biblioteca, de modo que algo muito próximo do pânico me toma por inteiro sempre que me pego formulando essas cartinhas mentalmente, quando as palavras se rendem a uma vil arquitetura para o outro, tão comprometida com a idéia do outro que não pode ser qualificada de qualquer outra coisa que não vil, uma vileza, enfim, um ultraje, a olaria começa a deitar fumo pelas chaminés e vão se excretando blocos e mais blocos de tentar comunicar qualquer coisa a alguém e onde já se viu noção mais adolescente?, mas aludo ao processo mental, tão-somente, quando constato que a caneta já está entre os dedos e noto que assumi aquela postura aleijona pela qual sou conhecido – o torso troncho, o braço enveredado feito galho em desespero de sol – no ato de escrever, essa coisa muito próxima do pânico torna-se terror absoluto, posto melhor, absolutiza-se em terror, não sobra margem para coisa alguma, e neste caso, em que nada me agradaria mais do que ser paralisado (detido, de alguma maneira), curiosamente – amaldiçoadamente – o terror não me paralisa, eu que me impeço pelas coisas mais sem significância, uma voz do outro lado da parede me constrange à completa inação (pensei hoje em escrever um conto sobre um homem que sofre um derrame ouvindo a vizinha de porta gemer durante o ato sexual), eu e meu nervosismo pequeno-burguês, perene, eu que sempre me achei – de través – destinado a parar, parar a priori, um homem que pára, eu que sempre me inclinei tanto a definir-me como um homem que pára, não consigo parar de escrever estas malditas cartinhas que são, em suma, para você, não têm sequer a dignidade das coisas que se encerram em si, folhas e mais folhas partindo dessa premissa tola – e como já disse, beirando o imoral – de que o outro me iça do nada, lendo minhas palavras, o outro me põe no ser como se põe um bebê na incubadora depois daquele primeiro banho de sangue e isso se dá só pela leitura de minhas palavras, minhas palavras para o outro – minhas palavras! a própria colocação me faz um frio na base da espinha – minhas palavras para você – e gostaria de fazer meia-volta e acreditar que, pelo menos, isto é bravura, sim, uma mostra de coragem, assumir que essas palavras não existem sem destinatário – se fracassei tão ruidosamente na demolição dum conceito de destino, por que não haveria de fracassar de maneira igualmente ruidosa na demolição dum conceito de destinatário? – mas a questão é que não consigo, não consigo pensar nessas cartinhas senão como uma rendição, uma sórdida desistência de estar em mim e ver minhas mãos – e entender minhas mãos – meus olhos – meus processos mentais – a desgraça completa dos meus processos mentais – e precisar chamar ao outro para ser, como quem pede permissão para deixar a classe e ir ao banheiro, por que não levantar-se e ir, ou pelo menos molhar as calças e mostrá-las ao professor sem nenhum – repito, nenhum – vestígio de vergonha?, as cartas são a queda, não que esteja tratando de algo previamente soberano, algo – alguém – que, em algum momento, não esteve caído, mas mandar notícias desse estar caindo, esse estar caindo que faz a distância inteira entre nascimento e morte, isto me parece demais, até porque não é tão brando quanto simplesmente mandar as novas a alguém, estou te escrevendo para te mandar às novas, estou te mandando às novas, quentinhas, como as labaredas do inferno, e no entanto, não sou capaz – não tenho nem a grandeza de espírito de, reconhecendo-o, simplesmente parar – as palavras não tem uma vida própria, eu não ousaria dizer isso, eu não ousaria afirmar que me chegam, somente, e tudo isto é inevitável e portanto mereço ser escusado, não mereço ser escusado, penso mesmo em te escrever para te advertir – nunca me desculpe nada – nunca, nunca me desculpe nada – minha fraqueza, minha total incapacidade de harmonizar teoria e prática – talvez assim eu aprenda qualquer coisa, talvez assim você aprenda qualquer coisa, você já me disse, certa feita, que minhas cartas eram um desconcerto justamente porque eu despejava tudo que me corria no peito sem a menor consideração por quem lê, que uma carta não é literatura, a literatura é impessoal, a escritura da carta configura um ataque – sim, é esta a palavra mais apropriada – de caráter definido, escolhemos uma pessoa, uma única pessoa no mundo para alvejar, rajamos nessa pessoa um canil de minúcias e pensamentos e informações de todo imprestáveis, e o que faz essa pessoa – esse infeliz, esse estuprado – com isso? responde? há isso também, carta não é coisa que se responda, toda carta é uma carta, uma primeira carta, acreditar na linearidade da correspondência é monstruosamente ingênuo, as coisas se interrompem, não há réplica possível, é um complicado jogo de espelhos – um complicado ataque de espelhos – que vão fazendo gestos feios uns para os outros mas ninguém está lá, ninguém está lá de fato, são apenas reflexos, reflexos que fazem gestos feios inutilmente, isto é na base do insultar-se, a imposição da presença, a imposição da nossa imprecisão, nossa desrazão, nosso horror, que acaba culminando nisto, neste ato de esporar o outro com um sachezinho de si próprio, um fio de cabelo, uma pegada, uma três por quatro, leves recriminações numa pátina de mel e suspiros nostálgicos – e o que é a nostalgia senão uma grande recriminação? – e se estou te escrevendo agora, esteja certo de que estou completamente atinado com o que digo, e continuarei atinado com o que digo enquanto selar o envelope, mesmo ao tomar o rumo da agência postal mais próxima, onde, logo antes de entregar a carta nas mãos do funcionário, pensarei se não será desta vez, se não será desta vez que conseguirei pôr fim a estas ofensivas de uma vez por todas, basta tomar a carta de volta, dizer que mudei de idéia, que falta qualquer coisa, que volto mais tarde, que nunca mais volto, que preciso deixar a classe e ir ao banheiro, mas acabarei não só enviando a porcaria da carta como pagando a mais pelo registro do envio, e colocarei o comprovante na carteira e a carteira no bolso de trás e o bolso de trás entre a bunda e o assento da cadeira do meu escritório enquanto redijo – o quê? – mais dessas maravilhosas CARTAS, para você, só para você, CARTAS!, pois sim, esteja certo, estou te recriminando, estou fazendo gestos feios – posto melhor, meu reflexo está fazendo gestos feios – eu estou apenas escrevendo – e sei que não haverá resposta, apenas mais uma sucessão de gestos feios, de perguntas retóricas, de saudações e votos dum viver tranqüilo e suave e um arsenal bastante vário de golpes de teatro, inclusa sua ironia, quase tão rudimentar quanto suas tentativas de mostrar-se carinhoso e preocupado com minha situação atual, e assim será até que um de nós morra definitivamente para a lógica epistolar, provavelmente você, você já está bem cansado de mim – garanto que não tanto quanto eu – e eu rezo para que você não responda, para que você fique calado, para que você não me force a mais uma dessas terríveis cartinhas que não consigo parar de escrever, ou que pelo menos me mande uma folha em branco, uma folha em branco sem palavra que a fira e a faça sangrar a própria inutilidade, pelo menos isso, que você me mande uma folha em branco e queira dizer com esta folha em branco que finalmente entramos em acordo, e nos emparelhamos, e nos deixamos devorar, afinal, pelo tanto que nunca entendemos nem nunca jamais entenderemos, ou porque ruímos, ou porque ruíram as próprias palavras, e se somos palavras e pouca coisa além, porque toda a construção foi abaixo, restando apenas uma ou outra gota sobre o toldo do vizinho e o sol se arrastando por detrás das montanhas, exausto, nem por isso menos implacável.

domingo, 24 de agosto de 2008

Violência


estou andando na rua
de noite
sou assaltado
por um menino
estrábico
não reajo

um homem está andando na rua
de noite
e vê
diante de si
a coisa de dois
passos
um sujeito sendo
assaltado por um
menino estrábico
ele não reage

o homem se acerca
do sujeito que acaba de ser
assaltado
pergunta:
por que você não reagiu?
o sujeito por sua vez
o eu
que a tudo empalidece
pergunta para
o homem: por que você não fez nada?

à guisa de crítica
o homem sarrafa o sujeito
que acaba de ser assaltado
(o eu
que a tudo empalidece)
por não ter reagido
desce a mão
uma única vez
pelo corpo
que não é indefeso
que é corpo de omissão
o homem desce a mão
no sujeito
o homem faz por uma
pedagogia inédita
mas talvez
a mais velha do mundo
diante da pequena
ferradura de passantes
que acaba de se formar

o sujeito que levou o safanão
parado (o corpo omisso
quase – mas quase
recolhimento
uma das mãos levantada)
mira remira as pessoas
bem diante de si
e bem diante do eu
e bem diante
da carapaça salgada
à roda dos olhos
um homem de capacete
com o visor levantado
está rindo
e não pára
de rir e
não pára
talvez nunca mais
um renque
de quadradinhos de mármore
bem diante de si
ele não reage

sábado, 9 de agosto de 2008

A Questão Permanece


"Cantor, dramaturgo, poeta: quem é Ismar Tirelli Neto? Criança-prodígio, personagem de tv, tema de filme, blogueiro voraz, e agora estreando em livro com Synchronoscopio, mais uma aposta poética da 7Letras: este rapaz ainda vai dar o que falar!"
(rabicho promocional assaz galhofeiro no site da 7Letras)

Para os amigos de longe, o livro já está à venda no site da própria, é só clicar no link acima. No mais, reforço o convite aos amigos de perto:



Ismar Tirelli Neto, seja ele quem for, estará lá biritando e rabiscando dedicatórias incoerentes até o último freguês sair cambaleando. Vai ser bacana. Dê o ar de sua graça.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Bulcão, uma Burocrata


"Havia ainda uma academia, duas piscinas, uma sauna, uma vasta área recreativa para crianças e até mesmo um pequeno salão de beleza que funcionava diariamente no horário comercial, excetuando-se os domingos, naturalmente. Minha burocrata deu uma risadinha gostosa, comentou alguma coisa sobre sermos todos filhos de Deus. Foi então que uma breve pausa se impôs, durante a qual fixei toda minha atenção no som rasteiro, quase tramador, produzido pelo recontro da esferográfica com a linha pontilhada. Eis o som que seu nome faz, pensei, e isso me divertiu por uma fração de segundo. Logo em seguida, valendo-se duma sem-cerimônia estudada até não mais, e por isso mesmo cativante – tenho um fraco pelas coisas ridículas – Bulcão perguntou-me se era casado. Mostrei um dos formulários; estado civil, solteiro, o quadradinho marcado com uma diminuta gaivota, poética, a coisa toda foi terrivelmente poética."
(do conto "Guarda-Vidas")

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma Aventura


Houve uma explosão.

Enquanto o fogo lambia as tripas do galpão distante, uma massa ovóide de escura fumaça roçava o primeiro dos sete céus estendidos sobre nós, a humanidade. Pensei em desenhos animados.

Alguém acertou a nuca de Heitor com uma lata de aerosol e saiu correndo.

A lata caiu no chão e foi rolando até o mar, vagarosa. Heitor soltou uma praga.

Ajustei meus óculos, sorri e sentenciei: “Aqui no cais do porto é assim”.

Pode-se esperar tudo do cais do porto, menos clemência. Tudo quanto se passa por aqui é sem clemência. Não há clemência nem para vítimas nem para malfeitores, posto que estes sempre estão a apenas alguns galpões de se transformarem em vítimas de outros tantos malfeitores que espreitam silenciosamente, dentre as sombras dos cargueiros em flor. Tampouco estes vilões restarão impunes por muito tempo; breve serão vitimados também por uma nova leva de malfeitores, e a justiça do cais do porto seguirá reinando suprema. No cais do porto não há lei, meu caro Heitor – há justiça. A forma mais crua de justiça; sua configuração mais primitiva. Aqui não se transige, aqui não se barganha, aqui é o Velho Testamento.

“Por que você me trouxe aqui, então?”, indagou meu amigo.

“Os marinheiros, Heitor – os marinheiros!”

domingo, 13 de julho de 2008

Considerando o Fato Poético


o fato poético é sagrado
o fato poético não é sagrado
o fato poético é sagrado contudo
cumpre dessacralizá-lo o quanto antes
pois que de uma vez que se laiciza o fato
poético ele se escancara para todos
e todos ficam felizes quando
o fato poético se escancara
para todos o fato poético
não é nada disso

jamais chegaremos a habitar o fato poético
o fato poético é inabitável
de fato a poética
é inabitável:
junta translúcida no meio
de coisa nenhuma

diz que na lua mora um homem
no fato poético não mora
homem nenhum

o fato poético é uma república estudantil

quarto de fundos
alugado; hotel
de beira de estrada;
lanchonete de rodoviária
o fato poético pode ou não

ser nada disso.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Antes Só


I.

um dia da caça
e outro e mais outro

a era da caça

II.

vaca amarela pulou da janela
às seis em ponto chegou o rabecão
enterro no São João Batista
extremo silêncio no pasto
silêncio no pasto
silêncio!

III.

quando tem festa
lá na floresta
geralmente bebo demais
e acordo abraçado ao vaso sanitário

domingo, 6 de julho de 2008

Espionagem


SARA: Nós vivemos num estado entrópico, Mateus?
PALACE: No sentido político.
SARA: Eu não acredito que você achava que era nosso único informante.
PALACE: Bastante ingênuo da sua parte, comendador.
SARA: Bastante ingênuo, mesmo.
PALACE: Imagina, o nosso domínio do mundo, depender de um só indivíduo. Não, não. Há toda uma rede operando.
SARA: Estamos em contato constante com os altos escalões.
PALACE: Aparentemente, nós somos os favoritos, agora.
SARA: Nós recebemos as mensagens.
PALACE: Carta registrada.
SARA: Nós deciframos os códigos.
PALACE: Tá lá escrito – confidencial.
SARA: Classificado.
PALACE: Confidencial.
SARA: Segredo de estado.
PALACE: Favor não dobrar, contém fotografias aéreas.
SARA: A gente te mostraria o envelope, mas o Palace é tonto e esqueceu no quarto dele.
PALACE: Debaixo da cômoda, perto do teletipo. (para Sara) Boa menina.
SARA: Acho que a gente não precisa mais de você, Mateus.
PALACE: Estivemos conferenciando cá entre nós, e chegamos a uma conclusão meio pra lá de aterradora.
SARA: Chegamos a conclusão de que talvez você seja... perigoso.
PALACE: Um agente duplo.
SARA: Um infiltrado.
PALACE: A reação.
SARA: De modo que não precisamos mais de você, Mateus.
PALACE: Estamos por nossa conta e risco, agora.
SARA: Você segue em frente.
PALACE: Mas pode ficar descansado. Não vamos te delatar aos superiores.
SARA: Não, não temos a menor intenção de fazer isso. Chegamos até a pensar em... enviar um relatório. Mas desistimos.
PALACE: Pesamos prós e contras. Esmiuçamos a questão com muito vigor.
SARA: Pra que se envolver em mais intrigas?
PALACE: Desestabilizar a nossa frente, assim.
SARA: Não valeria a pena.
PALACE: Não queremos que você seja eliminado, afinal de contas.
SARA: Estivemos juntos por tanto tempo. Nossa aliança...
PALACE: Nós temos algum senso de lealdade. É o mínimo que podemos fazer, não é? Não promover sua eliminação.
SARA: Todo mundo comete erros, afinal.
PALACE: Se você se desiludiu da causa libertária, se você resolveu abandonar tudo, de uma hora pra outra...
SARA: A escolha é sua.
PALACE: Perdoar é divino.
SARA: Mas nós não precisamos mais de você.
PALACE: A partir de agora, você está sozinho.
SARA: Estamos por nossa conta e risco, agora.
PALACE: Você segue em frente.
SARA: Por favor, não faça essa cara. As evidências eram incontornáveis. Nós temos um dever, nós temos o dever de não contornar evidências incontornáveis.
PALACE: Não dá pra continuar com esses joguinhos.
SARA: Você sempre falava... o dever isso, o dever aquilo. Pois então. Você entende, não é? Você entende?
PALACE: Ele entende, Sarinha.
SARA: Não sei...
PALACE: Não. Ele entende.
SARA: Ele não parece estar entendendo.
PALACE: Ele está entendendo.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pausa Para Mais Um "Cita Brasil"


Este tanto mais importante que a maioria dos outros, pois que prevê-se (e com muita razão) o fim de algum tempo.

“Sobreviver vale subviver. E cansa. Muito curto-circuito, muito grilo: o jeito é desmanchar a instalação toda. E envelhecer todas as fotos.”
(Décio Pignatari, 22/11/72)

Cá entre nós, essa manjadíssima morte do tarot, a que não fica estanque standardiza-se no fatomorteemsi e pode vir a renascer-se, é assim manjadíssima por razões bastante a propósito. Olha que eu não sou muito de saber de coisas, hoje mesmo não soube se o homem tinha ou não pisado na lua. Mas ta-hí, e não é possível que só eu esteja vendo. Veja você, vejam. Tudo vindo abaixo, tudo diluído e decantado, tudo muito certo de recomeçar-se de uma vez que se abandone toda a esperança. Quem está aqui pra brincadeira? Quem é que se propõe a seguir pesado de tanta máscara & que dizer de todas essas negociatazinhas emocionais que nos tomam tanto tempo? "Muito curto-circuito, muito grilo". Falou e disse. Eu estou entregando os pontos, essa rua tem um olho cego lá no fim, e eu não sou cego, eu estou vendo. Espero que vocês também. Alguma coisa está terminando, Deus é bom e justo.

Pra breve, seguiremos com a fantabulosa saga do Capitão Express-o.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Capitão Express-o!


I.
em Janeiro de 1965, a Marvel Comics Group
publica as primeiras e únicas Aventuras do Capitão
Express-o, super-herói criado por Elliot B. Jones em
setembro de 1964 após um curioso incidente num bar

essa (no entretanto) é a nossa história

II.
23 de setembro 1964
Elliot B. Jones ilustrador da Marvel Comics
pede a conta. Paga a conta. Levanta, veste o casaco,
caminha até a porta, nisso dá por um sujeito
velho e carcomido rabiscando qualquer coisa
num pedaço de papel. Elliot se aproxima

o velho está fazendo palavras-cruzadas.
O tempo pára, a ronda do planeta pela metade.
Elliot rememora
outra ocasião, janeiro ou fevereiro
do mesmo ano – noutro bar
das redondezas, um velho rabiscando
qualquer coisa num pedaço de papel
e Elliot, deixando-se tomar completamente
pela vista do velho, faz que se trata dum grande
poeta. Longo tempo Elliot observa
pelas frestas entre as pessoas
à sua mesa, o grande poeta
desconhecido lavorando – este ser Abandono

esta mão detritada – longo tempo
Elliot só faz observar, mas do emborcamento
de seu terceiro scotch on the rocks eleva-se
a coragem para ir ter com o velho
Elliot não pretende saber
que tipo de asneira está pra despencar
de sua boca, mas é quase como
se qualquer coisa dentro armasse
um bote e Elliot entendesse, de um golpe
que sua situação é, de fato, desesperadora,
que não havia mais como ignorar o quão desesperadora
sua situação havia se tornado,
e que estava a poucos passos
da única pessoa que poderia
lhe apontar uma solução. E portanto ele foi

passadas largas até chegar à mesa
do velho (o velho estava no canto)
e antes que pudesse abrir a boca
seus olhos fizeram o caminho pedregoso
até o papel no qual
o velho rabiscava fazia horas:
palavras-cruzadas. O tempo parou,
a ronda do planeta pela metade.

O mais curioso disso tudo é que Elliot
B. Jones, apesar de não se lembrar
distintamente das feições do velho com quem
quase se aconselhara em janeiro ou fevereiro, estava seguro
de que não se tratava dum reencontro –
o velho de Setembro era outro
outras palavras que se cruzavam
num outro bar, o único elemento
inalterado num cordão de anedotas
insignificantes era ele mesmo, o que lhe
pareceu, de certa maneira, insuportável, e portanto ele

voltou para casa na noite de 23
de setembro de 1964, e depois de comer uma tigela de cereais
com leite (Jane deixava a mesa do café pronta antes de dormir),
resolveu parar de adiar
o suicídio que planejava
há meses e dar cabo de si próprio ali
mesmo (na cozinha)
antes do sol nascer. Coisa que não fez.
Muito ao invés, sentou-se à escrivaninha (no escritório) e criou

(aquilo que viria a se tornar) o Capitão Express-o.

Jane dormia profundo.

III.
essa é a nossa história
minha, sua
outra história
por contar

estamos epicamente vazios
e por contar

IV.
e agora, a bem da verdade
estou ruminando a dicção
questões de tonalidade, compasso
o ritmo – uma ciência possível do ritmo – ou
o próprio mito do ritmo, o que resiste
à brusca atomização dos homens
de jaleco, JORRA do Inconsciente
Coletivo representação
inteiramente autêntica que é algo como
Funcionários Públicos ou Dentistas
ou Advogados
ou Poetas

ou Jung

estive esparramado na cama
da minha mãe (cama de viúva) lendo Frank O'Hara
a América é realmente bastante grande
deve-se assuntá-la com tanto vigor
e o tempo inteiro?
sinto-me um pouco culpado
quando penso no final de
Nashville (it don't worry me!)
ou no poema Having a Coke With You
não são Soy Cuba ou
Vidas Secas ou João Cabral de Mello Neto
mas eu gosto de todos na verdade
eu gosto de todos & por que não gostar?
são todos muito bons
(menos o Bilac)
é preciso valorar o tempo inteiro
contornar, tornar senciente
francamente, estou um pouco entediado

(esse quarto é mal-assombrado
toda madrugada, lá pelas 3:00
dou um pinote e não consigo
mais pegar no sono)

gosto quando todas as partículas do dia
empreendem súbita aliança
e desenham teu rosto
(um rosto)

porque isso deve significar, em alguma instância,
que estou apaixonado
que é estar qualquer coisa
e estar qualquer coisa é sempre muito bom
até quando digo que estou um pouco entediado
isso não deve ser tomado por lamúria
ao contrário, estar qualquer coisa
é sempre muito bom (bravata) – por exemplo, eu não sou
uma luminária

Elliot B. Jones e sua esposa Jane
B. Jones tinham dois filhos:
respectivamente
Tom e Jerry

V.
Tom:
De todas as criações de meu FALECIDO FALECIDO FALECIDO FALECIDO FALECIDO pai, devo dizer que o Capitão Express-o é minha favorita. Sem sombra de dúvida. Sei que há personagens seus muito mais queridos pelo grande público, personagens que vingaram e se tornaram, no longo do tempo, como que peças-chave do Inconsciente Coletivo americano, tais como Drake, o Iconoclasta e a Menina Urso. Mas o meu favorito nunca deixou de ser o Capitão Express-o. A idéia de um super-herói cuja mera presença física inspira nos outros a compulsão de falar a verdade me parece, até hoje, muito esperta, e carrega em si um alto teor moralizante que não deve ser ignorado. É força reconhecer, para os padrões da época, bom, tratava-se de um construto vanguardista – refiro-me ao Capitão Express-o – por isso teve de ser engavetado antes mesmo do Segundo Volume. Vendeu pouquíssimo, foi realmente desastroso, não sei o número exato... terei de ver a respeito da tiragem, Jerry, lembra da tiragem? Quanto foi? Lembra?

Jerry:
Não.

Tom:
Hoje em dia, esse primeiro e único volume de As Aventuras do Capitão Express-o representa um rombo, um golfo impossível, um vero CANYON na própria existência de muitos colecionadores. Pra você ver. O mundo dá voltas. Um dia da caça, outro do caçador. Etc etera.

Jerry:
Etc etera.

Tom:
Isso. Etc etera.

VI.
Alienação!
Incomunicabilidade!
Angst!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Amor Como o Nosso Foi Feito Pra Durar, III


baby tem os modos sonolentos
dum funcionário dos Correios



ele chama:

PRÓXIMO

como que de antemão decretando o próximo
distante como quem senta no mundo
esta tua condição; de próximo ninguém tem nada
(tamanho esplendor
por detrás da divisória)

de noite ele vem
com as mãos de córrego
me pilhar
até o último tostão
de mim; o jeito
é voltar pra casa
voando

ah, ele me põe louco
com seus modos sonolentos
de funcionário dos Correios

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Com a Palavra, o Exilado


Aqui em casa de minha mãe aportei faz alguns meses, e não foram numerosas, as ocasiões em que ousei me aventurar pelos caminhos dessa cidade hostil, bordejada de montanhas, pastos e alongadas estruturas que explodem em vigas expostas e retalhinhos de papel de coloração esverdeada, chamam-nas comumente árvores, mas tenho cá minhas suspeitas, de qualquer forma, no mais dos casos, minhas breves excursões ao dito “lado de fora” se limitaram, eu diria, espertamente, até a venda da esquina, presidida por um certo Seu Zacarias, com quem trato do arranjo das provisões, e a casa do advogado de minha mãe, com quem não me dou em absoluto, mas em cuja mansarda me encontro de vez em quando, não saberia explicar ao certo por quê, em verdade, Dr. Jasão é criatura das mais solícitas, não sei por que razão nutro tamanha antipatia por ele, tampouco sei dessa compulsão de visitá-lo pelo menos duas vezes por semana, de todo modo, é bom ver gente que não minha mãe, pelo menos duas vezes por semana, e na venda do Seu Zacarias, onde trato do arranjo de minhas provisões – minhas provisões – as de mamãe, ela as arranja por si só, não estamos a tratar de uma criatura inválida, mamãe não aparenta nem sente os anos que tem, ela está perfeitamente facultada a tratar do arranjo das próprias provisões, temos tratado bastante de não nos misturarmos, é tão fácil mesclar-se à mãe, especialmente nesse lugar hostil hostil e verde onde pouco ou quase nada há para se fazer que não prestar visitar inesperadas a pessoas que detestamos.

Brancura


lembranças não mando
que eu quero é me esquecer

sigo atrás do nada
que deixo; rastroseio
de tudo que sou

quero é mamar a brancura
dos espaços que esvazio

domingo, 8 de junho de 2008

Obrigado


sim, eu recebi suas
cartas
a mensagem
captada amado
mestre; tudo isto
fazendo peso cá
dentro de minha
algibeira
numa dentre tantas
aveludadas (por
dentro) algibeiras
de minh'
alma
(eu carrego) tudo
que tenho a dizer neste
momento depois
deste
carrilhão todo
de tempo é
obrigado
mas obrigado mesmo
viu
obrigado pela
atenção
obrigado pelo
tempo (despendido)
mas antes
mas antes
de qualquer outra coisa
obrigado
mas muito obrigado
mesmo
pelo carinho
e pela sincer/idade
(Deus, estou ficando velho)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

"Reds" e "Urbano" no Moviola


Dois poemas do "Synchronoscopio" (meu primeiro Gradiente, digo, livro, lançamento previsto para Agosto) subiram na última edição do Moviola. O convite foi feito pela querida Elis Galvão. Aqui o muito obrigado.

Joni


"Dora says: 'have children'
Mama and Betsy say: 'find yourself a charity
Help the needy and the crippled or put some time into ecology'
Well there's a wide wide world of noble causes
And lovely landscapes to discover
But all I really want to do right now
Is find another lover"
(Joni Mitchell, "Song for Sharon")

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Não Morar Mais Ali (06:56)


Tem um estreito de asfalto, quando a gente cruza, não é mais o mesmo. Isso pode acontecer a qualquer momento. A gente andando ou não. A vontade dum diário, uma qualquer conversão. Parar de fumar, descobrir o broto de brócolis. Sonhar com vizinhos atacados dum câncer e acordar quase chorando. Desistir de qualquer coisa, começar qualquer coisa, retomar qualquer coisa de desistido. Bem de manhã, estou escutando Simon & Garfunkel & Jards Macalé baixinho, que não estou só. A casa coalhada de gente. Como tantas outras, não é minha. Não essa. Uma outra será. Agora não. Isso pode acontecer a qualquer momento (não estar só; estar só). Todo mundo aqui tem o sono bem leve, o movimento dos barcos é um sopro quase nada. Minha cara, agora, nem quero – ver muito mais. Repeat: it took me four days to hitchhike from Saginaw, I've come to look for America. Não só eu. Todos, todos vieram procurar pel´América, somos todos nesse hino. Todos apinharam caravelas, todos detidos na alfândega o tempo de quase desconhecer o próprio fôlego. Normal. Praxe. Tem um estreito de asfalto que a gente cruza, cuidando de não perder o ritmo nem do ar em roda nem dos pés abaixo, cabeça erguida, olhar duro de vontade. Valises cheias de livros e mochilas abarrotadas de agasalhos. Tiramos retratos. Do que sentir falta. Tiramos retratos do que sentir falta. Uma porta, uma estampa, certa dobra da manta, manchas, uma estância que não é mais aqui. Eu que não sei se volto, eu que não sei bem ficar, só faço adivinhar o longe. Como que vislumbro. Como que sigo. Ao passo da miragem.

sábado, 31 de maio de 2008

Iconografia


aqui Vera em Hamburgo;
no verso da ruela de pedrinhas
– uns prédios mínimos de tijolo
calçada estreita claridade ao longe
sugere-se uma praça –
vai a data em esferográfica azul
janeiro de 67, o 7 ela
não cruza, dueto para dois traços
traindo certa impaciência
como que um 7 em fugir-se
para o algarismo seguinte

uma operação matemática
bastante simples dá conta
dos anos que Vera tinha ao tirar-se
esse retrato, esse retrato como que
prenda do nada, tão discreto,
esse retrato como que pacto
ou selo dum pacto, absoluto sigilo
quanto ao encontro que o trouxe à baila,
como que surgido de lugar algum,
esse retrato que hoje se toma – se,
abrindo uma gaveta, damos por ele;
se, atrás de papéis para deitar fora, damos
por ele, no fundo de uma
gaveta – por espontâneo, surgido
de lugar algum, como que prenda do nada,
retrato que tem seu termo lá
onde dizemos, ou movemos os lábios
difíceis sem produzir espécie alguma
de som, Vera esteve em Hamburgo
era janeiro de 67. Uma operação
matemática bastante simples dá conta
dos anos que Vera tinha ao tirar-se
esse retrato, Vera tinha 17 anos,
o grosso casaco cintado que leva sobre
o corpo era, a bem da verdade, de seu avô,
Vera teve de levá-lo à costureira
semanas antes de tomar o navio
para ajustar a peça, minguá-la até
que fizesse sentido sobre si, e isto é caso
de não perceber, assim que pegamos
a vista do retrato, o que vai lá de mais velho
é o rosto de Vera, sem sombra de
dúvida – ela conta tantos anos de rosto
neste retrato que não se sabe
de onde subtrair-los.

aqui Vera no apartamento
que dividia com Cynara, na Glória, no verso
do rosto de Vera, vai a data em esferográfica
preta, setembro de 78, um borrão
torna a segunda sílaba da palavra
setembro ilegível, mas havendo
uma primeira e uma terceira, perdoa-se
o borrão, entende-se – e era
setembro, assim como passamos
sem paisagens de outono
faixas de pedestre pintalgadas
de folhas
mortas; neste retrato, um outro, os cabelos
de Vera bastante longos, maranha mitológica
óculos de sol bolsa a tiracolo
o rosto lavado
branco de segredos
sem o menor aviso ela sorrisse

que é o caso deste outro retrato
aqui
ancorado num tempo que é junho
de 86 (este 8 é calmo), que os cabelos encurtaram
e tomaram sobre si muitas
voltas, ela no meio da rua ela
no meio da rua ela parada no meio da rua
no dia em que se mudou para
o apartamento na Leopoldo Miguez
onde foi ficando
onde foi se deixando ficar
ficando ficando
até onde deu

sábado, 17 de maio de 2008

Filme


um filme dirigido
por um cristal
seria todos os jeitos
de Odete Lara
adentrar um salão
o que nos tomaria
provavelmente
todo o tempo que há nesse mundo

terça-feira, 13 de maio de 2008

Hilda Machado


"agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil"
(Hilda Machado, trecho do poema "Miscasting")

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tempo Sobre Tela


Faz frinchas no branco
(seteiras?) suspeito a planta
de uma canção. Será minha?
Por que – afinal – ser minha?
Por que minha canção não ser
do outro? O tempo
é todo mundo. O que me digo.
A todo tempo. A porcelana
endurece e vinca. Isso já não muda.
Isso já não muda mais – apesar de tudo – não é pra sempre.
Isso tem fim, que há tempos ninguém noticia
a eternidade. Eu já nem sei como se diz

eternidade. Eu já nem sei desse cuidado.
Falar eternidade como quem fala
outro qualquer vazio. Ata da erosão.
Almanaque de tudo que se sumiu. Será
uma canção? Será vento? Será bem pouco?
Isto é, que a vida das gentes (penso), vez por outra,
se deixa infiltrar; racha; contrai-se
a si mesma; a porcelana endurece e vinca. Mas
desesperamos? A mim não me parece
que desesperamos. A mim não me parece. Talvez
nos falte até mesmo o instrumental do desespero.

Tempo sobre tela, tem quem ache
que o que vai lá é manifesto. A mim não
me parece. A mim não me parece
que seja manifesto. Qual o teu credo?
Envelhecer? A mim não me parece.
Quanto de audácia para fazer
a pergunta mais simples. O que
significam esse caracteres
postos juntos? Que mensagem?
Não há mensagem. Talvez não tenha
mesmo mensagem. Troco de mantra
anualmente. Esse é o poema
das coisas que acontecem das coisas
que aconteceram.