domingo, 28 de outubro de 2007

Complicações Com Um Banco


Do oco de lá, caixote de vidro no meio da avenida, via as gentes passando rápido em oposição ao vento. Não importa a direção que tomavam, era sempre investir contra, atacando as pedras da calçada com pasmosa decisão, a polvorosa dos cabelos. Pareciam muito encontrados naquela indisposição de manhã fria. Excessivamente encontrados. Incomodamente encontrados. Sabiam as coisas e a operação das coisas, uma força sem guia nem mapa, só tração. Estranho mesmo eram as coisas (e a operação das coisas) não lhe parecerem de todo estrangeiras. Do oco de lá, silêncio zumbido que mais parecia máquina, até que eram bem familiares, com uma única diferença: estarem do avesso -- sinfonia taluda que alguma orquestra executasse de trás pra frente. Idem as instruções de uso, as letras ele conhece, mas as palavras que constroem não têm parte alguma em si. O que não encaixa, mas tem existência. O pensamento sempre favorecia o que não tinha encaixe, desfechava-se lá sem o mínimo pudor.
Agora um arranque da consciência e ele contrafigura experimentos com macacos: colocar o objeto quadrado na fôrma quadrada, o objeto oval na fôrma oval. A sinfonia de trás pra frente não encontra fôrma nenhuma, mas se acidenta, e ele torna a pensar em poesia. Do oco de lá, a sensação de ferragens. As gentes passando sem tanto mistério.
(do conto "Complicações com um Banco")

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Buster Keaton


Em represália, dou a cada dor antiga o nome de um comediante.

(Buster Keaton me pegou pelas canelas ontem à noite)

O Cinematógrafo das Letras


“Fragmentar a imagem do mundo é uma coisa; pôr em risco um ego scriptor todo-poderoso, outra bem diferente. Porque isso acarreta, quando nada, tirar o solo de uma definição estreita, mas dominante, da lírica enquanto expressão de uma capacidade artesanal 'invulgar' ou de um eu que se confessa ou se projeta sem cessar sobre os mais diversos objetos, temas e situações enfocados. E, perdido esse eu sobre o qual se tecem, em geral, as significações no poema, passa a ser necessário trabalhar formas diversas de construí-las. E, testando impessoalidades irônicas, multiplicar as máscaras e deixar que se justaponham ou confrontem, em montagens imprevistas, discursos e imagens diversos.
São necessários, então, verdadeiros exercícios de tiro ao alvo. Exercícios em série. Como as muitas glosas da poesia enquanto quadro histórico que se sucedem em Pau-Brasil(1925). Ou como a invasão pelo reclame de uma possível cena íntima em 'música de manivela', do mesmo livro de Oswald:

Sente-se diante da vitrola
E esqueça as vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze cuidar
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços.

Poema no imperativo, como a forçar uma compra. Frases meio mecânicas, à maneira de gravações; repetições automáticas de um anúncio que se parece saber de cor. Poema sem sujeito ou interlocutores definidos. A um passo do 'produto industrial'. Espécie de olhar demolidor em direção à poesia em busca de profundidades e almas, em 'música de manivela' o prazer e a felicidade se compram e se encontram nos mais diversos magazines, 'a todos os preços'.
O oposto das indagações atormentadas de um Raimundo Correia, por exemplo, num poema como “Fetichismo”:

Homem, da vida as sombras inclementes
Interrogas em vão: - Que céus habita
Deus? Onde essa região de luz bedita,
Paraíso dos justos e dos crentes?...

Em vão tateiam tuas mãos trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a dúvida atroz blasfema e grita
E onde há só queixas e ranger de dentes... [...]

Interrogações que do desespero metafísico passam à charge se se contrapõe a elas um texto como 'aperitivo', da seção 'Postes da Light', de Pau-Brasil:

A felicidade anda a pé
Na Praça Antônio Prado
São 10 horas azuis
O café vai alto como a manhã de arranha-céus

Cigarros Tietê
Automóveis
A cidade sem mitos

É difícil ler sem certa ironia este 'que céus habita Deus?' quando se descobre que 'a felicidade anda a pé', quando imagens profundas ('as vicissitudes da vida, os prazeres da alma') e vocabulário vistoso servem apenas de recurso a mais em algum reclame de discos e vitrolas, quando 'foguetes pipocam o céu de quando em quando'.”
(Flora Sussekind, "O Cinematógrafo das Letras")

domingo, 21 de outubro de 2007

sábado, 20 de outubro de 2007

Susan Sontag


“We know more than we can use. Look at all this stuff I’ve got in my head: rockets and Venetian churches, David Bowie and Diderot, nuoc mam and Big Macs, sunglasses and orgasms. How many newspapers and magazines do your read? For me, they’re what candy or Quaaludes or scream therapy are for my neighbors. I get my daily ration from the bilious Lincoln Brigade veteran who runs a tobacco shop on 110th Street, not from the blind news agent in the wooden pillbox on Broadway, who’s nearer my apartment.
And we don’t know nearly enough.”

( Susan Sontag, “Debriefing” )

Geórgia na Estação Uruguaiana


"Hoje à noite fazemos a experiência (impagável) do óbvio ululante. Hoje à noite é uma porfiada análise do dois mais dois. Sim, vamos a isso: em trajes de safari. Monocromo, monofase. Vamos estripar o átomo (ele nunca me amou). Vamos jogar o átomo num fosso sujo (tudo mentira tudo mentira).
Estação Uruguaiana, 19:30.
Não há mão que me encoste no ombro. Não tem nada. Silêncio.
Nada além dessa indiferença modelar, marulho vago e enjoado de dezenas e dezenas de rostos que passam, em nada ficando; afogamento por multidão, doutor. Nada além dessa indiferença modelar, esse tédio incrível, esse tédio incrível que nasce o amor, pensando em nada que chego nele, o cinzeirinho de argila que aprendemos a fazer na Oficina do Diabo.
Talvez seja mais fácil ser inocente com as mãos sujas de sangue.
Ligar pro Maneco, preciso conversar com alguém, não agüento mais ficar quieta."
(do conto "A Desatenção")

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Os Imbecis


os imbecis têm cheiro de debaixo
de orelha de velha do interior
são como se sabe uma planura sem fim
e cada vez mais fácil reconhecê-los
numa multidão nunca se ouviu tamanha
ternura votar-se à própria voz
os que se gritam de madrugada plena
praça quinze juntos são um carvalho
medindo forças com o próprio tempo
era a tomada de Constantinopla e os
imbecis com seus chapéus perguntando “quê?”
e era o meio do filme e os imbecis
dizendo do sonho que tiveram noite
passada

os imbecis como se sabe
um pires ou um jingle de desinfetante bucal
é assim que sabemos os imbecis
salvo se seja imbecil também

os imbecis têm vivenda segura
nas canções do Brel
os imbecis articulam
coisa alguma
incansavelmente bem

os imbecis
isso é importante
os imbecis não queimam os cílios acendendo cigarro no fogão
os imbecis ao invés mentem o isqueiro que lagarteia no bolso
e dizem, por que você não acende no fogão?
não tem problema pode ir
eu faço isso o tempo inteiro

os imbecis
nem te deixar cantando sozinho na porta do colégio
eles deixam

é preciso arrebatar-lhes a palavra
não há destino mais cruel para a palavra
que acabar entre os dentes dum imbecil

(ai, o branco metódico
dos dentes
dos imbecis!)

os imbecis gostam de fazer espetáculo
da idéia arrancada a fórceps
e valquírios esfregam na nuca
dos demais convidados
a placenta sorridente do que não deu pensar

os imbecis como se sabe
revolucionaram o telejornalismo brasileiro nos anos oitenta
porque usavam seus cabelos cacheados
para telegrafar o mundo

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Cartografia



I.

Lembra-me o tio que – tão casual – lamentava
-- versos libérrimos --
casório temporão inquilinas imprevistas na mulher-baleia
expectoradas com gala vividas no horror
no tropeço na arritmia.

Senão as odes marítimas do avô
o classicismo singelo
o amor imperioso sublime --

devo admiti-lo
pelos idos do rosto liso
todo assombrado do mistério das coisas --

uma chispa de inveja?

Quietos de distância ou morte
já não me levam na mira
entanto goteja nos canos
a lágrima gorda
é a mesma lágrima gorda.

Grandes grandes
como a gente de nossa infância
será sempre grande
sempre odiosa e grande.

II.

A ferrugem; a precariedade.
Gotejam nos ossos meus ossos
as loas longas ausências e lentidões

meu sossegado alcoolismo suburbano
ah
tem me posto trêmulo
ah

(refrão)

tremulam palavras canos ossos dor monstruosa que veda a noite

meu sossegado alcoolismo suburbano
não mente. O trato às soberanas da Lapa
não mente. Por fim a entrevação
não mente – leque de cartas sobre a mesa. Vivíssimas.

III.

Que vida folgam essas unhas
nos meus nervos? Que vida
se me parte e se exonera da
carne própria pele pêlos para
refazer-se a mãos alheias?
Que ferruginoso sangue pelos canos
burilando burilando? Que imunda
tristeza de confissão?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O Vago Parente


"O cantor de quiosque é um bicho notável. Habita névoa, sereno e cadeiras de plástico. Vive de hits do momento e êxitos incontornáveis. Meu vago parente parecia levar isso muito à risca: traduz-se, um repertório de mocinhas de pouca conseqüência, rotativas – e o folclore irrecorrível do primeiro amor. No meio desse parangolé todo, havia esposa e duas filhas. Jazia esposa, duas filhas. Como era de se prever, cansaram e deram no pé, em grande estilo. Isso foi em Niterói, isso foi há muito tempo atrás, isso foi o primeiro divórcio. Agora meu vago parente anda no terceiro. Perdeu a voz, abalofou, ficou grisalho, voltou pra casa da mãe -- dá telefonemas de madrugada e vive de fazer empréstimos pra velhinhos. Falta pouco para que se torne um velhinho ele-mesmo, mas pelo mancar da carruagem, talvez nem chegue a tanto. Ele coloca a garrafa vazia de Sangue de Boi atravessada na pia enquanto adoço meu café, nossas pegadas se fundem sem encontro. De vez em quando ele tosse de madrugada, parece que vai vomitar, espero do meu quarto o passo corrido até o banheiro que somos forçados a dividir o resto do dia (nossas toalhas em extremos opostos do cômodo, etiquetadas), nada, não sei nada dos barulhos que ele escuta quando há gente aqui no quarto, de vez em quando eu bebo demais e surge alguém, de vez em quando eu bebo demais e não surge ninguém."

(outro trecho de "Todo Mundo, ou Novas Possibilidades Para Uma Fossa Insublimável")

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Alice Sant´Anna


"naufragou. O ator
está nu está só
sem palco ou platéia
sob o sol de meio-dia (supõe)
não sabe se morre de tédio
inventando ampulhetas – é preciso
contar o tempo, segundos de areia
no horizonte encurvado. O ator
disfarça as ondas que quebram
e por pouco acredita que são
aplausos, súbito anoitecer e cair
do pano estrelado."

(Alice Sant´Anna)

Amanhã é ela no CEP 20.000, lá no Jóquei. Garanta já o seu ingresso, quem avisa amigo é.

Matita Perê


"Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João."

(Tom Jobim / Paulo César Pinheiro)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Inventário (Integral)



Tramas mais abaixo, encruzilhadas no Protex.
Ainda uns fios de cabelo metidos entre a fronha e o travesseiro de plumas de ganso.
Mealhas de barba que a gilete não quer largar.
Pro remate, a queimadura que seu cílio desgarrado fez na ponta do meu dedão, e seu desejo valsando das retinas, indo ter com as autoridades competentes.
Não sei ver as horas no relógio dele, é muito complicado. Derrubou vinho barato no meu Cortázar e eu devo ter achado aquilo poético, em alguma medida, por que senão. Senão o quê? Nada. Nada não: nada. Se é no mesmo silêncio que adoço meu café com as medidas dele, vaga lembrança de tomá-lo muito amargo no princípio, e com gosto, quase bravata. Era eu, suponho, subtraído a todas essas miudezas (a caneca dele inclusive). A dívida de uma coxinha com recheio de catupiri, contraída a Setembro do ano passado, me enfurece estupidamente de uma hora pra outra.
Esquece uma camisa aqui em Abril, meses depois ela ressurge, passe de mágica, das profundas do armário, um pouco descosturada onde a manga esquerda faz esquina com o resto. Falta um botão. Que é dizer: não bastam todas as faltas do mundo, não, de modo algum. Há ainda o penúltimo botão da camisa que ele esquece aqui em Abril, imprescindível que haja. Note-se, estou contando de cima para baixo (março, fevereiro...). Era noite de Ano Novo e ele pelado na frente da minha família toda, começou a pregar. Arrastei-o do parapeito até a porta (gosto, quase bravata) e haveria de ser pra nunca mais. Nunca mais, ouviu bem? Saldo: um maço de Marlboro, um pacote com três camisinhas, vinte contos. Grande, grande. Só não esquece a cabeça porque não tem mais.
Agora, adianta alguma coisa? Vamos, com toda sinceridade.
Se quando apago a luz do quarto, tudo que ele tocou se estrela, e eu passo a noite em claro tentando dar nome às constelações. Abril, maio, junho, desatinei de prosa e poesia: peguei mania de inventário. Há certa ciência do resto, de resto, pouco se me dá. Um dia eu vou ficar velho, cansado e parnasiano, e ele vai continuar perdendo vôos e me telefonando de madrugada, perguntando se tem lugar no meu sofá. Então, será um riachinho de baba na almofada muito branca, e três baganas enfileiradas na tábua corrida amanteigada de sol, uma manhã como outra qualquer. É outubro, novembro, dezembro, e o que me sobra: um par de cuecas azul-piscina, um desenho tosco dum menininho segurando a minguante por um cordão.

domingo, 7 de outubro de 2007

Reds


eu vivo só mas ninguém sabe
num sonho de portas pantográficas
meados de maio
com chuva e livros pelo chão

eu vivo só mas ninguém sabe
monto tendas na varanda
chaveio descampados
e apago as luzes
daqui só se vê Vênus
eu vivo só e ninguém sabe

de vez em quando eu tomo o telefone nas mãos
penso em ligar pr'alguém bastante remoto
e dizer
você não sabe
qu'eu vivo só

e apesar de tudo

dizer um mês do ano
uma estação
um número
qualquer
ajuda
eu esqueço

não entendo por que deveria ser tão difícil
não gosto das nem me conformo com
as rachaduras nessa gente
eu vivo só (dez tons acima)
ninguém vota em mim

eu vou a casamentos
e chás de panela
e chás de bebê
e open rooms
e lançamentos
e bares
e discotecas
e a outros países desse absurdo sudamérico
ninguém vota em mim.

sábado, 6 de outubro de 2007

O Pequeno Regimento Sobe A Costa


quando a gente ficar velho
vai ter que apertar os olhos
mas as coisas não vão se esclarecer

ele disse
e não só

aprendi muitas coisas nessa vida
dignas dos que me passeiam
aprenderem idem
por exemplo

jane suas festas são uma droga
seus convidados tentam
mas não conseguem apreender o que você entende
por diversão
por nada nesse mundo

receber é uma arte
uma arte menor, mas ainda assim
uma arte

até as almofadas parecem vagamente eriçadas

você vai mesmo projetar os slides
de Tralfamadore
de novo?

viagem no tempo é um conceito tão antiquado
todo mundo sabe que você está mentindo
mas você continua

redondamente convencida
de que esse é o seu charme

no nosso meio no nosso meio no nosso meio é assim

ele disse
e não só
por exemplo

é gostoso tomar café com o sorvete
e o loteamento da lua
certas pessoas têm tanto dinheiro que compram ilhas inteiras
mas há quem consiga ler cem páginas por noite antes de dormir
as pequenas coisas
a física quântica
o estado da comédia italiana

jane você é uma anfitriã nervosa
e seus convidados adoecem parentes inventados
com muito mais freqüência do que você imagina.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Juvenília, o que é, a que veio


“I. concorda e vai na minha esteira, tentando equilibrar seus embrulhos, falando do livro ininterruptamente enquanto assinto repetidas vezes com a cabeça e o duplo-sorriso, diz da dificuldade que é concentrar-se nos tempos que correm, a dificuldade imensa de tentar abordar os sentimentos grandiosos (os sentimentos grandiosos!), quando tudo hoje em dia parece estilhaçar-se à força da investigação mais superficial, e a pressão de fazer a vida, deixar a casa dos pais, com quem I. alega ter relações destrutivas, sutilmente destrutivas, mas ainda assim, destrutivas, ademais, certa letargia generalizada que parece predar nossa geração, se bem que, como diria F., conhecido de I. que desconheço, não tem mais isso de geração, I., é só um bando de gente junta (por alguns instantes penso gostar mais de F. do que de I., mas não tenho o menor interesse em conhecer pessoas novas nesse momento da minha vida), mas o livro, o livro caminha, diz. I. ter uma coleção admirável de primeiras páginas, esboços, notas, apontamentos, lembretes, correspondências, cadernos e mais cadernos que vem acumulando há mais de quatro anos, e que o esforço agora é de coligir esses fragmentos de modo a conseguir um todo coeso, uma mesma temática, uma mesma questão, já que se sente tão pouco facultado a atacar de frente (suponho que queira dizer “linearmente”) o que quer que seja que tanto lhe atormenta(...)”
(do conto “Complicações com um Fantasma”)

Os mais chegados sabem: tirei 2007 para escrever. Deu um estalo. Desse ano não haveria de passar. Provável que passe, pouquinho que seja. Mas o fato é que desde o primeiro trimestre desse ano de 2007 minha ocupação primordial tem sido essa, o “Juvenília, ou Novas Possibilidades Para Uma Fossa Insublimável”.
Quando comecei a trabalhar no livro, ainda nutria a ilusão de que pouco ou nada mudaria. Toda decisão radical que a gente toma acaba coadjuvada por um desejo masmorrento de que nada se altere radicalmente. Pelo menos comigo é assim, e eu acho engraçado. A gente arde de vontade que as coisas sigam seu curso, os trancos e barrancos que a gente já conhece, teria essa vantagem, pelo menos. Daí que a vida ministra uma sucessão de pescotapas na gente e chega o segundo estalo: as coisas mudaram, mudaram um bocado. A decisão está tomada. Ter volta, até que tem, só que no mundo. Na gente não.
Andei lendo um Cortázar pecurrucho bonito como só (o infeliz não erra), “Diário de Andrés Fava”. Em algum momento o diarista titular diz: “Gradus ad Parnassum, Czerni, arpejos – a técnica. Mas o piano não muda, limita-se a modelar o homem, a fazer dele um pianista, um homem-piano, um servidor que corre o mundo de fraque preto. As mãos livres transformam-se em mãos hábeis para... (Um martelo, um cartão de enrolar cigarro – problemas do outro mundo; a mão do pianista é cada vez mais do piano e cada vez menos do homem)”. Bem por aí que a coisa vai. A gente se deixa engolir pela vivência nova, começa a ser em torno dela, cozinhar uma rotina que, se não difere em tudo da antiga, implica forçosamente numa nova perspectiva das interseções. De todas as vezes que eu tentei, cortejei a idéia de escrever uma coisa de alguma conseqüência, não quis abdicar de nada e entrei pelo cano. Multi-tasking não é comigo. Parabéns pra quem consegue, mas eu não dou nem pra acender cigarro andando. Os mais chegados sabem. 2007 foi ano de parar tudo e tentar entender o que diabos se podia fazer dessa maluquice toda.
Há alguns meses atrás mandei as primeiras cinqüenta páginas duma primeira versão do “Juvenília” para um concurso. Resultado só em dezembro. Assim como (creio eu) o resultado final do Contos do Rio (tem conto meu entre os dez finalistas).
Tenho recebido críticas extremamente pertinentes, positivas e negativas, no mais das vezes da parte de amigos próximos, em cuja opinião voto a máxima confiança. Tenho trabalhado obsessivamente nos pontos que considero e foram considerados falhos, tentando sempre me manter fiel a uma certa pesquisa de linguagem que tenho empreendido e a um certo viés da ficção que quero muito compreender melhor. Tenho entrado em espirais perigosas de auto-didatismo sem farol, perdendo mestres estupidamente e vendo alguns dos precitados amigos se mandarem do Balneário pra fazer a vida onde tem vida a se fazer. Tenho sofrido decepções acres. Tenho embarangado seriamente e bebido feito um lorde sempre que possível. Fui parar num maço e meio quase dois por dia. Tenho fugido, tenho voltado, tenho pensando em fazer bioenergética, tenho tido pesadelos freqüentes em que recebo envelopes de papel pardo e não consigo abrir o lacre. Aqui que o medo faz ato de presença inevitável. Será que dá? É possível? Vale a pena? Quem está fazendo as coisas, e como?
A gente bate no peito pra dizer uma desilusão que, a rigor, ainda nem chegou. Fico pensando no Cioran, que dos píncaros do desespero não parou de escrever nunca (que fosse compulsão, e não saída, ainda assim era algo como sentar no mundo uma certa visão de mundo extremamente particular, deve ter havido um motivo pro cara não parar, certo?). Fico pensando horas e horas a fio no verbo/ato “bancar”. Não dizer “estou escrevendo um livro” como quem diz “desculpa, machuquei seu pé?”. O que não é falar de orgulho. Não estou falando de orgulho. Orgulho do que quer que (se) seja é pecado e Deus relampeja. Estou falando de um certo estado de coisas que só se dá com extremos: sótão e porão de um narcisismo que, por força das circunstâncias, do nosso gosto inerente pelo cliché, já se tornou marca-registrada de quem quer fazer a vida escrevendo. O ideal? De enunciação pausadinha e sensata, estou escrevendo um livro, sim, a família, como vai? Ah que surpresa o planeta não parou de girar veja você.
Utopia é o que é sem lugar. As coisas mudam, elas não têm escolha. Dezoito baganas perfiladas sobre a mesa do computador, xícaras de café por toda parte, a puazinha no estômago que pra breve aflora em úlcera. Um trabalho danado de trabalhoso e já começo a contrair minhas primeiras dívidas com essa entidade ubíqua que é o Banco Bradesco. Chego a pensar em proporções inversas, que nem “O Arquivo” do Giudice. Estou até o pescoço de coisas por revisar, deadlines auto-impostas e tudo isso é saber que a gente não chegou nem no primeiro andar, é a angústia de dizer o mundo e a angústia de estar no mundo que se quer dizer, e é uma angústia sem movimento, sem revolta, sem alternativa, sem mãos dadas, muito pelo contrário, se alguém acha sua angústia mais coloridinha e bem-torneada vai lá e te chuta os cornos. Já disse que fico pensando horas e horas a fio no verbo/ato “bancar”? Pois. É bem por aí que a coisa vai. Desde sempre a gente sabe que não tem saída, e até o quadragésimo quinto do segundo tempo há esperança de que uma janela secreta se escancare. Ela não se escancara. Tem pouco lá fora além da nossa vontade. Não significa alcançar. Não significa redundar em nada. Significa exatamente isso que se disse: tem pouco, mas muito pouco mesmo lá fora além da nossa vontade.
Vontade de sentar no mundo o que eu entendo por mundo, tenção vaidosa, tudo o mais. Segundo o planejamento corrente, estou a 30 % de terminar “Juvenília” de uma por todas as vezes, e me dou até o fim do ano. Quero escrever mais sobre escrever, de maneira mais responsável. Vou ver se faço isso mais vezes, que seja pra nada, mas que seja. Não vou cometer o absurdo (aqui) de dizer que estou ficando velho, mas em tempo, sim, mais cadenciado, apitou-se o fim do jogo. Por exemplo, hoje vou extrair um siso.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Pierre Reverdy


THE FINISHED RUIN

I have lost the secret given me
I no longer know anything

For a moment I believed that that could go
Nothing remains any longer
This is a man without feet who wishes to run
A woman with no head who would like to talk
A child with hardly any eyes only for crying

However I have seen you depart
You were already distant
A trumpet sounded
A mob shouted
And you, you did not turn around

We have a long road to follow, step by step
We will walk it together

I detest your smiling face
The hand that you extend to me
And your sucked in stomach so old
You are just like me

On my return I did not receive anything
No one gives me anything
All is spent

A useless piece of decoration
In the night

(Pierre Reverdy, traduzido por Tom Hibbard)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

No Que Não Pensar Agora


Da primeira vez que saí da sua casa eu estava tão feliz sabe eu tomei um picolé de limão. Dois anos mais tarde eu saí da sua casa de novo e eu estava em êxtase, então comprei uma cerveja e quando um sujeito me pediu um cigarro na rua fiz questão de oferecer logo dois, dadivando: pra viagem. Pra que ninguém veja, não estou pensando nessas coisas agora, vou tirar o prato de cima do abajur e pendurar um quadro, tomar nojo da camisa embolada no canto do quarto há dias e esvaziar o cinzeiro e vamos, tentar pensar em outra coisa, sim, tente se concentrar, é o que se prescreve, vou martelar um prego às três da manhã, encharcar o corpo de suor e me sentir apocaliticamente viril, vou acordar a porra do prédio inteiro, vou me concentrar em acordar a porra do prédio inteiro, porque eu não estou pensando nessas coisas agora e é preciso que todos saibam.

Chance


Ou bem você me toma agora, ou é a empresa peçonhentamente decorosa de seguir em frente. Pior: sem amargura. Não haveria motivo, não haveria razão no mundo para arrependimentos, viv´alma pra sentar ao banco dos réus nos pesadelos que se predizem. Ainda, é exatamente como deixar com cada pessoa que te cruza o caminho um pedaço de si que não se recuperará. Toda a gente devia ter consciência disso. É da generosidade e do desprendimento – virtudes que, como se sabe, só nos chegam pela penúria, pela auto-imolação. Se de fato existe um Céu, aposto que há Nele um bocado de nuvem particularmente celeste, uma espécie de Monte Carlo do Valhalla, exclusiva aos amantes mais aplicados. Enfim, divagações.