sábado, 20 de outubro de 2007

Geórgia na Estação Uruguaiana


"Hoje à noite fazemos a experiência (impagável) do óbvio ululante. Hoje à noite é uma porfiada análise do dois mais dois. Sim, vamos a isso: em trajes de safari. Monocromo, monofase. Vamos estripar o átomo (ele nunca me amou). Vamos jogar o átomo num fosso sujo (tudo mentira tudo mentira).
Estação Uruguaiana, 19:30.
Não há mão que me encoste no ombro. Não tem nada. Silêncio.
Nada além dessa indiferença modelar, marulho vago e enjoado de dezenas e dezenas de rostos que passam, em nada ficando; afogamento por multidão, doutor. Nada além dessa indiferença modelar, esse tédio incrível, esse tédio incrível que nasce o amor, pensando em nada que chego nele, o cinzeirinho de argila que aprendemos a fazer na Oficina do Diabo.
Talvez seja mais fácil ser inocente com as mãos sujas de sangue.
Ligar pro Maneco, preciso conversar com alguém, não agüento mais ficar quieta."
(do conto "A Desatenção")

Um comentário:

NOME DE QUEM? disse...

As vezes eu me sinto sozinha quando estou no meio de uma multidão, mas muito mais vezes me sinto acompanhada, quando na verdade estou sozinha. Sou minha melhor e pior companhia. Sou muitas personas. E as vezes nem eu aguento a mim mesma e trato de ficar bem longe de mim, só para não dar papo...