terça-feira, 14 de outubro de 2008

Coisas Se Passando Num Parque


por que tanto tempo no observatório das coisas que se passam no parque? Os espocos, a música vermelha vinho em galão teiado de vime? Mas por que o coreto parece de repente tão nu, e essas trancas de metal, ainda vigas? É primavera, talvez. Uma partida de oitavas e a lua, travesti obeso. Todos de saída de seus cursos de teatro, e seduzem-se. Com pop do início dos novecentos e noventa – mas também, quem nunca fez isso? Me enteio da pergunta, eu aqui, bastante quieto, pensando tudo um argumento, mas francamente apavorado de acender o próximo cigarro. Faça uns planos, quaisquer planos, você devia estar é fazendo planos, a pilot e papel kraft, que papel kraft não serve só para blindar os janelões, serve também para fazer

planos. Tampo os olhos, faço como quem genuinamente se perde? Ó, donzela. Três acordes catados à exaustão num pinho que nem se usa mais chamar assim, a palavra Catarse faz sua primeírissima aparição da noite. Isso está em roda. Isso tudo está em roda. Todos saídos de seus cursos de teatro, falando Catarse e cantando qualquer outra coisa. Por que escrever sobre as coisas tão jovens que se passam no parque? Por que não sou mais assim tão

e me maravilho? E me maravilho desses corpos semi-nus e dessa incrível parolada, cabacenta a despeito de si própria? Terão eles as cores das latas de lixo e da fachada do Corpo de Bombeiros? E eu, que cores eu? O que querem, esses atores? Tirar a própria camisa, tirar a camisa dos outros? Um papel na novela das seis e um estoque vitalício de haxixe? Tio Vânia? Shakespeare? Todos saídos de seus cursos de teatro, falam Zé Celso e cantam qualquer outra coisa. Eu estou para ficar? Não

a lua assoma grande por detrás das montanhas, e talvez seja princípio de incêndio no terraço do vizinho. Uma latinha é todo o trajeto de volta, e sou como a prévia encarnação de todos os outros os outros os outros e sou, afinal, como todos os outros, chegando em casa, saco dum pilot e faço planos no papel kraft que reveste os janelões do quarto. Planos. Planos para o futuro. Todos eles usam brincos, astericos que rebatem lá embaixo em nota de rodapé com os seguintes algarismos: dois zero um dois. Dois mil e doze. Garantir ingresso à cidade-modelar. Aprender como se faz na selva. Chupar o Messias vindouro. O mundo vai infalivelmente acabar e eu aqui ah Deus e eu aqui

apavorado de acender o próximo cigarro.

Um comentário:

Ramon Alcântara disse...

psicótico! james joyce!


manual de como se sentar no parque e observar.


abzzzz