domingo, 16 de março de 2008

Queixas


"Há pouco tempo atrás alguém me mostrou uma foto duma mocinha sorridente metida num tailleur azul-marinho e disse: é a M..., fez o primário com a gente. Estudei por alguns instantes o coque glacial encarapitado na cabeça da jovem e tornei: pois bem, e o que ela está fazendo numa plataforma de petróleo? Alguém: ela trabalha lá. Ah, sim. Claro. Como não? Tudo é possível. A rigor, tudo é possível. Elevadores caem, hospitais entram em greve, geleiras derretem. É com esse senso de tudo – mas tudo mesmo – ser possível que nos aproximamos das manchetes no jornal diariamente, se ainda nos sobra algum instinto de auto-preservação. Impossível, portanto, dar conta do pânico que aquele retrato de M... (de quem, por sinal, não me lembrava em absoluto) me fez. Por algum tempo entretive a fantasia de que aquilo não passava de uma piada de mal-gosto; aquela menina estava fantasiada, ou quem sabe, talvez, não passasse de um autômato construído por um professor lunático. Custei a equacionar.
Sofremos, de um golpe, noção exata da distância que se percorreu de um ponto X a um ponto Y, e nada nos prepara para o choque que vem na esteira dessa realização. Há um prazer torto em constatar que J..., o menino pacato que ficava a dois nomes do meu na lista de chamada, hoje em dia cita Mein Kampf como um de seus livros favoritos; ou que V..., o garanhão precoce da turma E, superou seu vício em refrigerantes e agora só toma chá sem açúcar, alegando em público que “a vida já é doce demais”. De algum modo, é como se nada tivesse mudado, e essas pessoas seguissem raciocinando no mundo que as cerca como pré-adolescentes culturalmente retardados, o que nos dá a sensação confortante de que não foi há tanto tempo assim. Mas há um porém, porém dos mais aterradores: J... está fazendo mestrado em economia, V... está abrindo consultório pediátrico, e M... ingressou na lucrativa arena das geociências (Perfuração? Tecnologia offshore?). Pra muito breve essas pessoas estarão dando as cartas, fazendo e desfazendo o tricot sócio-político nacional, sendo as manchetes de jornal das quais nos aproximamos diariamente com aquele senso de que tudo – mas tudo mesmo – é possível."
(trabalho-em-andamento para a revista Ilusorama)

2 comentários:

Samia Mounzer disse...

Ismar, te digo, em tom de confissão, penso bastante no que quis de dizer (ou não, porque um "ou não"sempre nos alivia de algo mal colocado e não resisto à metalinguagem, droga), na faculdade, no meu cotidiano profissional e tenho uma consideração a fazer a respeito: tenho medo (e nada de alusões a Regina Duarte).

Beijo!
(e eu disse que gostei bastante de te conhecer?)

vic disse...

hmm! estou ansioso pra saber como os novíssimos poetas vão entrar nesta estória.