segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Nostálgico


Foi um grande inverno
novembro de 46
quando me apaixonei por um clarinetista
e a janela do meu escritório recortava
seis quinze avos de Torre Eiffel

não consigo pensar em ninguém
que não estivesse escrevendo um romance

açoitando de juventude
quantidades impossíveis de papel

salvo, talvez, o clarinetista

não consigo pensar em ninguém
desmusado
preciso fosse, escreveríamos para os percevejos
escreveríamos

como talvez o clarinetista chutasse latas de lixo
fizesse gestos obscenos para as freiras que flutuavam
nevosas pelos bulevares cuspisse na nuca dos meninos embecados
a caminho do liceu escreveríamos

Um comentário:

nome e quem? disse...

O importante nesse escrever é a expressão passional ou o ato de deixar gravado o sentimento? Não precisarias escrever, poderias falar e se todos sentissem o que sentes talvez todas as bocas se emudeceriam e nem letras e nem palavras necessitariam ser usadas. Querias sentir o que sentes. Saber como é quando o relógio corta o som do clarinetista apressado enquanto as freiras mostram obcenidades no topo da torre eifel.