quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Oi, Futuro!



Malta; tem treta imersiva lá no Oi Futuro, no Flamengo. Trata-se da Blooks – Tribos & Letras na Rede, um panorama dos Novos Novíssimos com curadoria de Bruna Beber, Heloísa Buarque de Holanda e Omar Salomão. Passem lá, tá super-bonito-pra-dedéu.

Tem conto meu lá, aliás. É esse daqui:

A VERDADE

É muito difícil – para mim, ao menos; os outros aparentam gosto – você seguir vivendo.

A coleção de Barbies de minha dentista. Incontinenti recordo o consultório na Bergasse, número 19 – a profusão de bibelôs de antes do dilúvio, prateleiras, prateleiras. Sigi, seu rosto cortinado de fumaça azul. Estou divorciado de boa porção de minha boca agora: uma bacia, um sugador, um ancinho. Breve a assistente coxeia sua entrada, empunhando meu novo pré-molar de acrílico, a mesma ladainha do marido subitamente sustado por infarto fulminante – chamá-la-ei Igor a partir de agora.

Depois da faxina, a empregada tem por sestro sentar-se frente à porta dos fundos – naturalmente, aberta – e observar o corredor mal-iluminado; estará ideando planos de fuga? Estarei eu? Será necessário dialogar mais? Leva-se uma vida pacata aqui. Ademais, é muito bem-paga; as dependências espaçosas e confortáveis, muitas paredes para seus diplomas e colagens e o eventual slogan revolucionário.

Haverá real necessidade de tantas interrupções tolas? Meus vizinhos de cima decidiram reformar o banheiro; o barulho é insuportável. Assim não é possível trabalhar. A tirania rítmica das pancadas – tump... tump... tump... – alonga por demais o trajeto do meu escritório até o banheiro.

Nada sei do motor a nossa distância. Faz três anos que o assunto me ocupa, o que deu origem à tetralogia “Decisão Liminar Temporária”. Encontro seus amigos em eventos literários, indago de seu paradeiro, eles a) calam b) desconversam c) discretamente pedem que eu abaixe minha pistola. Peço-lhes que me refiram a você: digam que estou emagrecendo, que já não sangro mais em público com tanta freqüência, que resolvi, afinal, trocar os dentes que não me serviam por outros mais apetecíveis ao senso estético do comum. Mas sei que essas informações não lhe chegam; ou lhe chegam distorcidas, irreconhecíveis. Exatamente por isso que não mando mais cartas: temo que as palavras se baralhem no caminho e formem sentenças novas, sobre as quais não teria responsabilidade alguma.

Não tomo do absurdo nenhum grande alívio.

Escusado dizer que, na cidade, as pessoas não são como coelhinhos tristes. Portam-se mais como imensos rinocerontes que sofrem de enxaqueca, e se agastam com a lentidão do tratamento homeopático. A lição mais pertinente que se pode auferir de um passeio pelo Centro: precisamos com urgência de analgésicos mais fortes.

Certa feita, durante um colóquio, um sujeito me perguntou: o senhor não se sente nem um pouco culpado por não conseguir escrever em outra pessoa que não a primeira? Respondi: sinto-me TRANSIDO de culpa por não conseguir escrever em outra pessoa que não a primeira; assim como, em meu dia-a-dia, sinto-me TRANSIDO de culpa por não ser onisciente; ao fim do quê, pus-me de pé e levantei a camiseta, mostrando a todos os presentes meu umbigo pintado de tinta fosforescente. O mesmo sujeito que havia colocado a questão comentou, altíssimo: sim, todos nós já lemos “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico”. Por favor, cubra isso.

Parece-me que, nos dias de hoje, as relações não mais se dão entre indivíduos, e sim entre as funções que esses indivíduos desempenham. Ponto pacífico que isto pode conduzir a vultosas complicações de cunho ontológico. Mas até o presente momento parece estar funcionando.

Naquela época, você era um Zé Ninguém, e tudo a seu respeito era promessa. Nós lotamos as arquibancadas, tão apreensivos que mal podíamos respirar. Sonhávamos sua próxima cartada. Agora seus quadros aquilatados em milhões, seus livros encabeçam as listas dos dez mais, suas canções, êxitos radiofônicos instantâneos. Você encontrou o corte de cabelo perfeito e o tom de voz mais adequado à consecução de seus objetivos, e seus amigos entrevistam celebridades nos fundos do Copacabana Palace para canais de tevê a cabo. Vingou. Vingou-se. Mas de quê? Nossos olhares petrificados nas arquibancadas, nossa incapacidade de tragar o oxigênio que se nos dispunha, nossa apreensão? Esteja certo, nossas intenções eram as melhores possíveis, ou pelo menos boas o bastante para que você permanecesse imóvel, bem no centro do estádio, de onde você nunca deveria ter saído.

Não temos mais motivo algum para perder o fôlego, nossas palmas em carne viva de tanto aplaudir. Todos mortos de cansaço.

O barulho tornou-se ainda mais alto. Abro a porta do escritório. Operários põem abaixo uma das paredes do foyer com picaretas. Por quê? Seu lugar é no andar de cima, tento informar-lhes. Não parecem escutar. A empregada observa, pálida, resignada, diz que fez o possível. Restamos os dois no cômodo, estáticos, rostos retintos daquele horror que se sente à exposição de uma alegoria particularmente óbvia.

Num frasco vazio de Higher, by Dior, pus uma oração à Nossa Senhora Aparecida. Depois joguei no mar. É ver no que isso dá.

Durante o mesmo colóquio: o senhor se sente confortável com o epíteto de escritor existencialista?
Macaco gosta de banana?
Acaso não terá sido... branca, a cor do cavalo branco de Napoleão?
Se nos espetardes, não sangramos?

No centro de um estádio, as arquibancadas lotadas. Sonham minha próxima cartada, mal podem respirar. Devo matá-lo? Devo matá-lo alegoricamente? Devo matá-lo de verdade e depois escrever um roman à clef narrando a experiência? Devo pedir à Gervásia (a empregada) que o faça, e em troca conceder-lhe permissão para usar maquiagem dentro de casa? É preciso apenas errar a mira; manter o ar irrespirável para os pagantes. Custou-me um bom bocado perceber, mas não há negócio mais rentável, no âmbito das simpatias, que o fracasso. A multidão delira.

Meu agente telefona e diz que a revista X. está pensando em contratar um novo crítico de teatro, mas, verdade seja dita, eu nunca vi uma peça em toda minha vida.

2 comentários:

Me disse...

Lá vou eu ler o juveniliaounovaspossibilidadesparaumafossainsublimavel.doc denovo e denovo. Saudade queridão.

nome de quem? disse...

"Mais apetecíveis ao senso estético do comum(...)" Foi pelo senso comum que trocou seus dentes? Porque o trabalho dos pedreiros não é aplaudido quando pronto? É menos bonito que dentes brancos e textos exitêncialistas? E se o cavalo fosse marrom e de estimação e só estivesse velho? Quando ficar grilhaso não deixará de ser moreno.
"Se nos espetardes, não sangramos?" Nem sempre meu caro mercador de veneza. Há de se salientar que só se sangra se o furo chegar no Tecido conjuntivo, pois o tecido epitelial não é vascularizado.

"Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito."

Aplausos aos pedreiros!